23/06/2009

O PERU E O IRÃ VISTOS PELO MESMO OLHAR IMPERIALISTA

Ivan Pinheiro

Não há comparação melhor para denunciar a manipulação da mídia e a hipocrisia dos governos dos países imperialistas do que os posicionamentos de ambos com relação a dois fatos recentes: a resistência indígena no Peru e as manifestações no Irã.

O Peru é governado por Allan Garcia, aliado incondicional dos Estados Unidos, com quem firmou um Tratado de Livre Comércio, cujo objetivo é o saque das riquezas minerais da selva amazônica peruana. Neste caso, a mídia diz que o assassinato de dezenas de indígenas foi produto de conflitos provocados por manifestações violentas destes contra as leis. Com exceção de Evo Morales e Hugo Chávez - que se solidarizaram com os indígenas - nenhum chefe de Estado se pronunciou a respeito.

O mundo burguês fingiu que não viu! Nenhuma foto que revelasse a brutalidade da repressão foi exibida na imprensa burguesa.

Já o Irã é o primeiro país da fila de espera para ser agredido pela máquina de guerra norte-americana. Afinal, seu governo insiste em dominar a tecnologia nuclear, para se defender do arquiinimigo dos povos da região, o Estado de Israel, detentor da bomba atômica e cabeça de ponte dos Estados Unidos no Oriente Médio. Os iranianos já possuem mísseis que podem alcançar Israel. Acusa-se também o Irã de ajudar a resistência armada palestina e libanesa. O país só não foi agredido até agora por falta de tropas, hoje atoladas em aventuras militares no Iraque e no Afeganistão.

Contrastando com o silêncio sobre os indígenas peruanos, os chefes de Estado dos países imperialistas têm sido loquazes sobre o Irã. Sarkosy e Ângela Merkel - em cujos países os trabalhadores e estudantes são reprimidos - condenaram veemente a “violência contra os manifestantes iranianos”. Obama manteve silêncio sepulcral diante das atrocidades israelenses na Faixa de Gaza e, já como Presidente, referiu-se ao bombardeio que levou à morte de centenas de civis na fronteira Paquistão/Afeganistão como “efeito colateral”. Já sobre o Irã, se declarou “profundamente perturbado com a violência que viu na televisão”.

A manipulação da mídia é tão grosseira que os jornais escondem as manifestações a favor do presidente iraniano, algumas maiores que as da oposição. Por outro lado, passa-se a impressão de que as manifestações da oposição são contra a política externa iraniana. Certamente elas têm a ver com insatisfações diferenciadas - sobretudo em setores da classe média e da burguesia -, como os impactos da crise econômica, a queda do preço do petróleo, a inflação, a questão dos direitos civis e aspirações por um Estado laico ou pela ocidentalização dos costumes e do consumo.

A desestabilização do Irã é parte dos planos imperialistas. Cumprido o objetivo de se apropriar das reservas de petróleo do Iraque, os Estados Unidos preparam uma falsa retirada deste país, onde deixarão um governo títere, forças repressivas armadas e dirigidas por militares ianques e poderosas bases militares, que não existiam antes da invasão. Enquanto isso, vão satanizando e deslegitimando as próximas vítimas.

Esta “saída” do Iraque permitirá a liberação de tropas para os novos planos belicistas: ocupar parte do Paquistão, a pretexto de derrotar os talibãs, e atacar o Irã, o mais cobiçado objeto de desejo do imperialismo, não só pela ajuda às resistências armadas no Oriente Médio mas por sua posição geopolítica estratégica. O país fica exatamente entre o Iraque e o Afeganistão, com os quais tem as maiores fronteiras; além disso, é banhado pelo Golfo Pérsico e o Mar Cáspio.

Como internacionalistas, temos que ser solidários com o povo iraniano frente ao imperialismo. Mas não podemos nos iludir com o regime que vigora no país, muito menos glamourizá-lo. De fato, seu antiimperialismo ajuda a fragilizar os principais inimigos da humanidade. Isto devemos valorizar. Mas não nos esqueçamos de que se trata de um antiimperialismo nacionalista de direita.

O fundamentalismo do regime dos aiatolás não tem nada a ver com os ideais socialistas e libertários. Trata-se de um regime conservador, machista, homófobo, anticomunista. O Partido Comunista Iraniano (TUDEH) foi colocado na ilegalidade e seus membros são perseguidos. Nesse sentido, não se difere da maioria dos Estados árabes conservadores e pró-imperialistas, a não ser pelo fato de os iranianos serem persas. Aliás, alguém já viu alguma campanha midiática pela “democracia” nos Estados árabes dirigidos por oligarquias monárquicas aliadas dos Estados Unidos, que não se submetem a qualquer eleição?

Mas de forma nenhuma a esquerda pode se iludir ou se omitir diante da campanha de satanização do Irã, já há algum tempo em curso. Ela é a ante sala da agressão militar. Já há muitos indícios de que estamos diante de um golpe midiático, de guerra psicológica. Mais uma das chamadas “revoluções das cores”, desta vez verde. Lembram-se da satanização de Sadam Hussein antes da invasão do Iraque? Cadê as armas de destruição em massa?

22/06/2009

Irã: A mentira das "eleições roubadas"

por James Petras
Dificilmente haverá qualquer eleição, na qual a Casa Branca tenha um interesse significativo, em que a derrota eleitoral do candidato pró EUA não seja denunciada como ilegítima por todos os políticos e mass media da elite. Nos últimos tempos, a Casa Branca e os seguidores gritaram infracção após as livres (e monitoradas) eleições na Venezuela e em Gaza, enquanto alegremente fabricaram um "êxito eleitoral" no Líbano apesar do facto de a coligação liderada pelo Hezbollah ter recebido mais de 53% dos votos. As eleições concluídas a 12 de Junho de 2009 no Irão são um caso clássico. O candidato à reeleição, o nacionalista-populista presidente Mahmoud Ahmadinejad (MA) recebeu 63,3% da votação (ou 24,5 milhões de votos), ao passo que o principal candidato da oposição liberal, apoiado pelo Ocidente, Hossein Mousavi (HM) recebeu 34,2% (ou 13,2 milhões de votos). A eleição presidencial iraniana atraiu um comparecimento recorde de mais de 80% do eleitorado, incluindo uma votação sem precedentes 234.812 do estrangeiro, na qual HM obteve 111.792 e MA 78.300. A oposição liderada por HM não aceitou a sua derrota e organizou uma série de manifestações de massa que se tornaram violentas, resultando na queima e destruição de automóveis, bancos, edifícios públicos e confrontações armadas com a polícia e outras autoridades. Quase todo o espectro de fazedores de opinião ocidentais, incluindo todos os grandes media electrónicos e impressos, os principais sítios web liberais, radicais, libertários e conservadores, reflectiram a queixa da oposição de fraude eleitoral desenfreada. Neo-conservadores, conservadores libertários e trotsquistas juntaram-se aos sionistas louvando os protestários da oposição como a guarda avançada de uma revolução democrática. Democratas e republicanos condenaram o regime, recusaram-se a reconhecer o resultado da votação e louvaram os esforços dos manifestantes para subverter o resultado eleitoral.
O New York Times, a CNN, o Washington Post, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel e toda a liderança dos presidentes das principais organizações judias americanas clamaram por sanções mais duras contra o Irão e anunciaram o proposto diálogo de Obama com o Irão como esforço inútil. A mentira da fraude eleitoral Os líderes ocidentais rejeitaram os resultados porque "sabiam" que o seu candidato reformista não podia perder... Durante meses publicaram entrevistas diárias, editoriais e reportagens de campo "pormenorizando" os fracassos da administração de Ahmadinejad. Mencionaram o apoio de clérigos, antigos oficiais, comerciantes do bazar e acima de tudo mulheres e jovens de cidades fluentes em inglês para provar que Mousavi estava destinado a uma vitória esmagadora. Uma vitória de Mousavi foi descrita como uma vitória das "vozes moderadas", pelo menos na versão da Casa Branca daquele vago cliché. Eminentes académicos liberais deduziram que a contagem de votos fora fraudulenta porque o candidato da oposição, Mousavi, perdeu no seu próprio enclave étnico entre os azeris. Outros académicos afirmaram que o voto da juventude" – baseado nas suas entrevistas com estudantes universitários da alta e média classe média das vizinhanças do Norte de Teerão eram esmagadoramente a favor do candidato "reformista".
Como os media ocidentais acreditaram na sua própria propaganda de uma vitória intrínseca do seu candidato, o processo eleitoral foi descrito como altamente competitivo, com debates públicos candentes e níveis sem precedentes de actividade pública e desembaraçada pelos prosélitos dos candidatos. A crença numa eleição livre e aberta era tão forte que os líderes ocidentais e os mass media acreditaram que o seu candidato favorito venceria. Os media ocidentais confiaram nos seus repórteres que cobriam a manifestações de massa dos apoiantes da oposição, ignorando e subestimando o enorme comparecimento a favor de Ahmadinejad. Pior ainda, os media ocidentais ignoraram a composição de classe das manifestações competidoras – o facto de que o candidato à reeleição estava a ter o apoio da muito mais numerosa classe trabalhadora pobre, camponeses, artesões e empregados de sectores públicos ao passo que o grosso dos manifestantes da oposição provinha de estudantes da classe alta e média, da classe dos negócios e dos profissionais. Além do mais, os apoiantes da oposição eram uma minoria activista de estudantes facilmente mobilizada para actividades de rua, ao passo que o apoio de Ahmadinejad provinha da maioria da juventude trabalhadora e donas de casa que exprimiriam o seu ponto de vista na urna eleitoral mas tinham pouco tempo ou inclinação para empenhar-se em política de rua. Um certo número de sabichões dos jornais, incluindo Gideon Rachmn do Financial Times, apresenta como evidência de fraude eleitoral o facto de Ahmadinejad ter ganho 63% dos votos numa província de língua azeri contra o seu oponente, Mousavi, de etnia azeri. A suposição simplista é que a identidade étnica ou a pertença a um grupo linguístico é a única explicação possível do comportamento eleitoral, ao invés de outros interesses sociais ou de classe. Um olhar mais atento ao padrão de votação na região Leste-Azerbaijão do Irão revela que Mousavi venceu apenas na cidade de Shabestar entre as classes alta e média (e apenas por uma pequena margem), dado que foi completamente derrotado nas áreas rurais mais vastas, onde as políticas redistributivas do governo Ahmadinejad ajudaram os de etnia azeri a cancelarem dividas, obterem créditos baratos e empréstimos fáceis para os agricultores. Mousavi venceu na região do Azerbaijão Ocidental utilizando suas ligações étnicas para ganhar os eleitores urbanos. Na altamente populosa província de Teerão, Mousavi bateu Ahmadinejad nos centros urbanos de Teerão e Shemiranat ao ganhar o voto dos distritos da classe média e alta, ainda que tenha perdido duramente nos subúrbios adjacentes da classe trabalhadoras, pequenas cidades e áreas rurais. A ênfase descuidada e distorcida sobre "votação étnica" citada por redactores do Financial Times e do New York Times a fim de apresentar a vitória de Ahmadinejda como uma "eleição roubada" é acompanhada pela obstinada e deliberada vontade dos media de recusarem um rigoroso inquérito de opinião à escala nacional efectuado por dois peritos dos EUA apenas três semanas antes da votação, o qual mostrava Ahmadinejad a liderar por uma margem de 2 para 1 – ainda maior do que a sua vitória eleitoral de 12 de Junho.
O único grupo de apoiou fortemente Mousavi foi o dos estudantes universitários e dos licenciados, donos de negócios e classe média alta. O "voto da juventude", o qual os media ocidentais louvou como "pró reformista", era uma clara minora de menos de 30% mas veio de um grupo altamente privilegiado, eloquente e que em grande parte falava inglês, com um monopólio sobre os media ocidentais. A sua presença esmagadora nas reportagens ocidentais criou o que foi mencionado como o "Síndroma de Teerão Norte", o confortável enclave da classe alta do qual provieram muitos destes estudantes. Se bem que eles pudessem ser articulados, bem vestidos e fluentes em inglês, no segredo da urna eleitoral foram profundamente derrotados. Na generalidade, Ahmadinejad saiu-se muito bem nas províncias produtoras de petróleo e petroquímica. Isto pode ter sido um reflexo da oposição dos trabalhadores do petróleo ao programa "reformista", o qual incluía propostas para "privatizar" empresas públicas. Da mesma forma, o presidente em exercício saiu-se muito bem junto às províncias fronteiriças devido à sua ênfase no fortalecimento da segurança nacional em relação às ameaças estado-unidenses e israelenses depois de uma escalada de ataques terroristas transfronteiriços patrocinados pelos EUA a partir do Paquistão e de incursões apoiadas por Israel a partir do Curdistão iraquiano, as quais mataram grande número de cidadãos iranianos. O patrocínio e o financiamento maciço dos grupos por trás destes ataques é uma política oficial dos EUA desde a administração Bush, a qual não foi repudiada pelo presidente Obama.
A grande maioria dos eleitores favoráveis ao presidente em exercício provavelmente sentiu que os interesses da segurança nacional, da integridade do pais e do sistema de previdência social, com todas as suas falhas, podiam ser melhor defendidos e melhorados com Ahmadinejad do que com os tecnocratas das classe alta apoiados pela juventude privilegiada orientada para o ocidente que aprecia mais os estilos de vida individualistas do que os valores da comunidade e solidariedade. A demografia dos votos revela uma polarização de classe real contrapondo capitalistas individualistas de alto rendimento e orientados para o mercado livre à classe trabalhadora, de baixo rendimento, apoiantes de uma "economia moral" baseada na comunidade na qual a usura e a especulação são limitadas por preceitos religiosos. Os ataques abertos de economistas da oposição às despesas do governo com a previdência, com o crédito fácil e com os pesados subsídios a alimentos básicos não os favoreceram junto à maioria dos iranianos beneficiários daqueles programas. O Estado era encarado como o protector e benfeitor dos trabalhadores pobres contra o "mercado", o qual representava riqueza, poder, privilégio e corrupção. O ataque da oposição à "intransigência" da política externa do regime e a posições "isolando" o Ocidente só tinha eco junto a estudantes liberais da universidade e grupos de negócios do import-export. Para muitos iranianos, o fortalecimento militar do regime foi vista como tendo impedido um ataque dos EUA ou de Israel.
O êxito eleitoral de Ahmadinejad, visto na perspectiva do contexto histórico, não deveria surpreender. Em competições eleitorais semelhantes entre nacionalistas-populistas contra liberais pró ocidentais, os populistas ganharam. Os exemplos passados incluem Perón na Argentina e, mais recentemente, Chávez da Venezuela, Evo Morales na Bolívia e mesmo Lula da Silva no Brasil, todos eles tendo demonstrado uma capacidade para assegurar margens próximas ou mesmo superiores a 60% em eleições livres. As maiorias votantes nestes países preferem a previdência social em relação a mercados sem restrições, a segurança nacional e não alinhamentos com impérios militares. As consequências da vitória eleitoral de Ahmadinejad estão abertas a debate.
Esta abordagem diferiria agudamente daquela dos sionistas americanos, incorporada no regime Obama, que segue a orientação de Israel de pressionar por uma guerra antecipativa com o Irão e que utiliza o argumento especiosos de que nenhuma negociação é possível com um governo "ilegítimo" em Teerão que "roubou uma eleição". Acontecimentos recentes sugerem que líderes políticos na Europa, e mesmo alguns em Washington, não aceitam a linha dos mass media sionistas de "eleições roubadas".
A interrogação na sequência das eleições é a resposta israelense. Netanyahu assinalou aos seus seguidores sionistas americanos que eles deveriam utilizar o ardil da "fraude eleitoral" para exercer a máxima pressão sobre o regime Obama no sentido de acabar com todos os planos para encontrar-se com o novamente reeleito Ahmadinejad. Paradoxalmente, comentaristas estado-unidenses (da esquerda, direita e centro) que "compraram" a mentira da fraude eleitoral estão de forma não intencional a proporcionar a Netanyahu e seus seguidores americanos argumentos e falsificações: Onde eles vêm guerras religiosas, nós vemos guerras de classe; onde eles vêem fraude eleitoral, nós vemos desestabilização imperial.

19/06/2009

Crise, Ideologia e Criminalização dos Movimentos Populares


(Rodrigo Fonseca-Secretário Político do PCB do Rio Grande do Sul)

Estranhem o que não for estranho
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar remédio para o abuso.
Mas não se esqueçam / de que o abuso é sempre a regra..
(Bertolt Brecht, A exceção e a regra)

O trabalho do intelectual é garimpar as palavras, deslocá-las, construir conceitos, aprofundar as reflexões e abrir novos campos de questões. Desconfiar do trivial, do que parece óbvio. Desafiar o senso comum, praticar o senso crítico. Recusar falsos problemas, evitar debates vazios que não nos levam a lugar algum.
Sendo um intelectual orgânico, comprometendo-se com a organização e preparação da classe trabalhadora para a disputa política, este trabalho deve ser ainda mais cuidadoso, pois diz respeito à vida e ao precioso tempo de milhares de lutadores que colocam a sua energia militante à prova todos os dias, “na ponta da chuteira”, lutadores frente aos quais é preciso reconhecer que sem eles não somos nada.
Agradeço demais ao convite do Professor José Grisa, e parabenizo ao conjunto dos lutadores-organizadores por este importante encontro. Sou um professor universitário recém-chegado a estas bandas do nosso país-continente, e espero poder contribuir com algumas considerações extraídas da reflexão teórica junto ao materialismo histórico e dialético, e da minha própria militância comunista, como membro e dirigente do Partido Comunista Brasileiro, PCB.
Esta crise, como qualquer crise, nos desafia, testando nossas forças e explicitando nossas debilidades. Temos aí diante de nós o péssimo resultado das recentes eleições na Europa: o crescimento da direita européia é um sinal assustador para os interesses das maiorias trabalhadoras, essa classe cada vez mais internacional, mais desterrada e mais proletária.
Não temos, é verdade, o direito de encarar esta como mais uma crise, seria irresponsável. As dimensões dessa crise são inéditas. Mas ao mesmo tempo, é preciso que se diga que corremos sempre o risco de cair na lógica do inimigo de classe, que hegemoniza as idéias, que nos dirige culturalmente, achando que só temos crise quando os ricos têm de colocar o rabo entre as pernas, como agora, desmoralizando-se perante a opinião pública com a queda dos mitos neoliberais.
Para as classes dominantes, as crises não são nenhum presente dos céus, mas podem sim servir de oportunidade para a acentuação de algumas tendências, como as gigantescas fusões e a precarização dos contratos de trabalho, dando chances ao Capital para aumentar ainda mais a extração de mais-valia, a exploração dos trabalhadores.
O aumento do desemprego é um dos sinais mais dramáticos dessa crise. Um milhão de trabalhadores já perderam seus empregos na América Latina desde o estouro da crise. A previsão da CEPAL e da OIT é a de que até o final deste ano outros quatro milhões de postos de trabalhos poderão ser extintos na América Latina. (Em 2008, o subcontinente já registrava QUINZE MILHÕES de desempregados).
Há 51 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos, sendo que 66% deles estão fora das salas de aula. Apenas 13% deles estão cursando curso superior. A principal causa alegada para não estar estudando, entre os homens é trabalhar para ajudar a família e, no caso das mulheres, a gravidez. Agora o dado do desemprego: 46% dos jovens estão desempregados. E 50% dos outros 54% que estão empregados, trabalham sem carteira assinada, ou seja, do total de jovens, 27% tem emprego com carteira assinada, e portanto direitos trabalhistas e previdenciários. E 31% deles podem ser considerados miseráveis, pois possuem renda per capita inferior a meio salário mí­nimo por mês! E aí o maior dos índices: 70% dos jovens considerados pobres, são negros.
Nós, e sobretudo a nossa juventude, estamos prestes a viver momentos ainda mais difíceis, é verdade. Mas no entanto não podemos nos abalar. Não suportaríamos nem resistiríamos a tudo isso sem as ideologias. Peço licença, porém, para discutitr o sentido de ideologia que quero ressaltar.
Na crítica e na compreensão das ideologias, podemos identificar três vertentes: o cientificismo, o culturalismo e a ideologia enquanto prática e posicionamento cotidiano.
No passado, e até mesmo recentemente, muitos pensaram a ideologia enquanto desconhecimento e fantasia, em oposição à ciência, ao conhecimento. No máximo, a ideologia comportaria a realidade de modo invertido ou mistificado.
Encarar a ideologia desse modo cientificista, opondo categoricamente conhecimento e desconhecimento, ciência e ideologia, é quase um convite para achar que a ciência está livre e acima da luta de classes, é quase achar que os cientistas e instituições pairam sobre a realidade que investigam, que não sofrem coerções e limitações decisivas, que são sujeitos universais lidando com objetos universais.
Através de outra vertente, culturalista, alguns pensam a ideologia enquanto sistema de idéias e posturas que herdamos quase que por osmose, de forma passiva, em oposição às idéias que conscientemente aderimos e defendemos. Seria a ideologia então um fenômeno mais “cultural”, como nossos hábitos, hábitos que trariam como conseqüência o desvio e a diluição de nossas responsabilidades políticas.
Desse modo, tão dicotômico e simplista como a primeira oposição entre conhecimento e desconhecimento, a política vira pura racionalidade e a cultura o seu oposto, pura irracionalidade, ou tradição e folclore. Ao invés de ver a cultura como uma política disseminada, ela é vista como uma “natureza” de determinados sujeitos sociais. É o que vemos de forma muito clara em algumas tentativas de justificar a violência doméstica e o machismo, encarados como problemas apenas culturais, e não políticos.
É verdade, os marxistas, estando aí o próprio Marx – que em certa ocasião afirmou não ser marxista – variam muito na conceituação de ideologia. Em geral, elas se relacionam com estas duas macro-vertentes comentadas, cientificista e culturalista, uma centrada nas formas de DESconhecimento do mundo em sua própria ordem e a outra nas formas de atuação (ou falta de atuação) política sobre ele.
Para não jogar fora o bebê com a água suja do banho, em relação à vertente cientificista podemos sim diferenciar o trabalho da ideologia e a prática científica, não os encarando de forma dicotômica, de forma não dialética, mas como diferentes posturas que se relacionam contraditoriamente.
Pode parecer uma afirmação absurda, mas a postura científica pressupõe certa opção pela imbecilidade, pela ignorância, pelo estranhamento, pelo “nada sei” do filósofo. Como se não soubesse de nada e precisasse olhar de outro lugar e com outros olhos que não aqueles do dia-a-dia, aqueles que tudo ou quase tudo reconhecem e identificam. Assim buscamos desfazer, em alguma medida, os efeitos da ideologia, pelos quais reconhecemos razões e verdades que foram descobertas por outros, em outros tempos e lugares.
Assim, a ideologia não se refere apenas a belas idéias e engenhosas manipulações. A ideologia se refere também (e sobretudo) a práticas e posicionamentos que assumimos no dia-a-dia de nossas vidas. E isso ocorre porque há diferentes formas de ser um empregado, um patrão, um estudante, um militante político, um pai, um filho, etc. Todas estas formas disputam entre si e nos colocam em ação.
Um grande desafio que temos é deslegitimar estas ideologias, não tolerar a menor intolerância contra os lutadores de nosso povo, pois são eles que tornam o nosso ar respirável, que fazem do presente não uma prisão, mas um degrau para o futuro. Como na poesia de Maiakovski, os inimigos começam roubando uma flor do jardim e terminam roubando a nossa voz. Ou como na de Brecht, primeiro eles levam um negro, um judeu, um padre, um comunista, até que em algum momento eles nos levam – e já não podemos fazer nada. Mas eles não têm o direito de fazer isso, são ladrões e seqüestradores, e se nos convencermos de que somos maioria, haveremos de reaver o que é nosso.
Precisamos construir novas legitimidades no tecido social, disseminar novos saberes, culturas e políticas, para chegarmos ao ponto análogo, semelhante àquele em que, em 1955 nos EUA, a prisão de uma negra por se recusar em dar o lugar no ônibus para uma branca gerou uma imensa comoção e vários protestos. Estes protestos contra o racismo geraram líderes e geraram consciência. A possibilidade de tornar um negro chefe dessa nação até ontem extremamente racista, deve muito àqueles protestos, àquela intolerância e sensibilidade contra a criminalização da resistência.
Quando as maiorias se sensibilizarem a este ponto contra a criminalização do comércio ambulante, das lutas pela terra, pelo teto e pelo ensino superior público, dentre outras lutas que são reprimidas com violência, estaremos em outro patamar da luta de classes. E muitos e muitos outros se recusarão a entregar o seu lugar, garantido por direito e por justiça, ao agronegócio, à especulação imobiliária, às redes atacadistas, à mercantilização do ensino.
Enquanto somos criminalizados em nossas demandas e nas ações que realizamos para consegui-las, corremos o sério risco de sairmos dessa sociabilidade atual, regulada pela acumulação de capital, e passarmos ao fim de qualquer sociabilidade – o que seria aprofundar a barbárie e talvez possa nos conduzir a uma nova era feudal, porém muito mais instável, destrutiva, violenta, mistificante e opressora. No lugar dos cavaleiros medievais, exércitos e tecnologias de segurança e repressão muito mais sofisticadas. No lugar do clero ignorante e supersticioso nos preparando para a boa morte, a religião individualista massificada pela mídia, que nos mata em plena vida, sendo que a expectativa de vida hoje é mais que o dobro do que era no período medieval. No lugar da criminalização dos supostos infiéis, hereges e feiticeiras, a brutal criminalização da pobreza e da luta contra ela.
Podemos dizer que o ápice dessa ideologia do trabalho se deu com o fascismo, e aqui no Brasil, bem guardadas as proporções, com o getulismo da época do Estado Novo, que enviou a judia comunista Olga Benário, grávida, de presente para os nazistas: segundo o fascismo, em suas muitas versões, o trabalhador, desde que não crie problemas e se atenha disciplinadamente ao seu ofício, sua arte de trabalhador, deve ser louvado e recompensado. Mussolini, o ditador italiano, gostava de dizer: quem trabalha não suja as mãos!
Isto é assim, meus amigos, em todo este imenso conjunto do pensamento conservador, desde os filósofos gregos: a única virtude reconhecida das classes subalternas, para os conservadores, a virtude possível do povo trabalhador é saber controlar os seus apetites (a sua sede de cachaça?), fazer direito o seu trabalho (sendo prestativo, colaborando,...) e, mais importante, saber manter-se perfeitamente e exclusivamente no seu lugar. Toda uma ciência administrativa foi gerada para garantir a maior extração possível dessas máquinas de trabalhar que somos nós – “que somos”, não, que nos tornamos.
Hoje em dia, com toda a literatura de auto-ajuda e a nova indústria cultural do subemprego, da precarização dos contratos de trabalho, vende-se a idéias de que precisamos amar nossas correntes, amar como ninguém a empresa que nos explora. Querem que sejamos pobres laboriosos, empresários e engenheiros de nós mesmos, eternamente atrás de nossa qualificação e reciclagem para o mercado, como se fôssemos lixo, eternamente sem saber sobre o dia de amanhã.
Se cedermos aos discursos nos quais o problema é a nossa baixa qualificação, nossa preguiça, nossa falta de criatividade, nossa honestidade (!), etc., ficaremos correndo atrás do rabo, reproduzindo a lógica e a saúde do capital. Não faremos mais do que jogar o seu jogo, sofrer as suas dores, gritar gol e comemorar como bobos o seu crescimento.
Em geral, ou na maior parte do tempo, jogamos este jogo. Acontece que os conflitantes não preexistem ao conflito. Os conflitos formam e informam os seus agentes, as suas partes. Por exemplo, as equipes de futebol não surgiram antes do futebol. Não há uma história da burguesia e uma história do proletariado, que um dia se encontraram e onde um pisou no pé do outro, tendo início uma briga dos diabos. Há sim uma história – e muitas histórias – do capitalismo. Mas dizer isso não significa cair num fatalismo estruturalista, onde estaríamos condenados a morrer abraçados aos senhores de nosso tempo. Significa que é preciso mudar de terreno, ampliar o leque de questões, questionar a essência mesma deste conflito maior. É preciso deixar de ser o que querem que sejamos eternamente.
Neste sentido, levamos pânico aos donos do capital, aos agentes do Estado, aos senhores da guerra, quando ao invés de festejar nossa condição e identidade de trabalhadores, nossa condição de escravos modernos que produzem muito mais por menos chibatadas, quando ao invés de valorizarmos nossas misérias, valorizamos nosso potencial.
Será que é verdade que a vida não nos ofereceu mais que a possibilidade de fazermos filhos? – daí o termo romano, extremamente preconceituoso na sua origem, proletário, aquele que só detém a sua incontável prole e nada mais. Se é verdade, então é preciso responder que nossos filhos e tudo o mais que somos capazes de produzir por nós mesmo são o que de mais precioso temos, pois com eles somamos saberes e disposição, experiências de lutas e expectativas de transformações mais radicais, teoria e prática revolucionária.
Podemos derrotar os conservadores e reacionários, desde que recusemos as acusações de crimes que nos querem infligir, desde que entendamos que por trás da criminalização das lutas está uma tentativa desesperada de impedir que a história aconteça, que o presente se descongele, que o mundo mude a nosso favor, que passe a ser um mundo comum em possibilidades de desenvolvimento dos seres comuns. Daí a temos a expressão mundo comunista, de seres comuns, sem hierarquias prévias, sem as camisas de força da divisão social do trabalho entre classes – e não entre aptidões e potencialidades.
É claro, a atual crise afeta muito diretamente a nossa capacidade de dizermos e difundirmos estas verdades, afeta a nossa capacidade de nos conhecermos, de nos reconhecermos e de deslocarmos a roda da história, deslocando-nos do papel subalterno que nos prepararam e do qual se esforçam para provar que é o único papel possível.
Contraditoriamente, em termos globais corremos o risco de ficarmos ideologicamente ainda mais capitalistas e mesquinhos, mais intolerantes com as interrupções do trânsito e da novela, mais resistentes em eleger operários sindicalistas, negros de nome islâmico, mulheres com ou sem marido político ao lado, índios que defendem o plantio ancestral da coca, bispos progressistas, militares antineoliberais. Ainda que a maioria destas vitórias eleitorais tenha sido seguida de azedas frustrações, elas pontuam a movimentação popular na base da sociedade civil e algumas vezes pontuam o desespero das velhas elites políticas obrigadas a aceitar gestores que não saiam diretamente de seu antro fétido e imundo.
Se isso for verdade, se temos no horizonte a trágica perspectiva de um recrudescimento político, isto mostra que nossa luta contra a criminalização dos movimentos populares, que é a luta pela disseminação de uma cultura de tolerância e simpatia com os lutadores do povo, a favor da legitimidade e do direito de protestar e buscar uma vida melhor para a classe trabalhadora em seus muitos segmentos, se for verdade que a chapa vai esquentar ainda mais para o nosso lado, isto mostra que lutar contra a criminalização das lutas populares é muito mais importante do que eleger políticos que supostamente são ou foram de esquerda.