25/11/09

Os Rumos da Frente de Esquerda

(Nota Política do PCB)
O Partido Comunista Brasileiro – PCB, diante da conjuntura política e do posicionamento dos partidos que, em 2006, compuseram a Frente de Esquerda, apresenta sua posição a respeito das perspectivas políticas no processo que antecede as eleições de 2010.
Avaliando que o processo sucessório presidencial de 2010 ocorrerá dentro de um quadro no qual o debate e a disputa eleitoral colocam frente à frente o PT e o PSDB como as duas principais forças que disputam hoje a direção política do bloco conservador, formado por um grande campo de consenso sobre os rumos centrais da economia brasileira e sobre a continuidade da macro-política econômica até então em vigor,

Considerando ainda que o PT e o PSDB são antagonistas nos limites internos ao consenso burguês na gestão do capital e na manutenção da institucionalidade política hegemônica:

Destacamos a necessidade de que as forças de esquerda produzam uma agenda política, social e econômica contra-hegemônica ao consenso conservador, em função do que apresentamos, a seguir, um conjunto de reflexões e proposições para abrir o debate no sentido da elaboração de uma proposta alternativa que se diferencie essencialmente dos rumos hoje propostos.

Inicialmente, não consideramos fundamental propor e debater nomes de pré-candidatos à sucessão presidencial, sobretudo quando a discussão em torno destes pauta-se pelo critério central ou mesmo único da suposta “viabilidade eleitoral” de nomes. Discutir o processo político pré-eleitoral em torno de nomes configura a prática comum dos partidos da ordem, que submetem a agenda política a projetos de grupos restritos e rebaixam ou anulam o debate de propostas político-sociais.

Neste sentido, propusemos, desde o início deste ano, que retirássemos do centro da discussão os nomes colocados e iniciássemos um amplo processo de debate programático que necessariamente envolvesse, além dos partidos que compuseram a Frente de Esquerda (PCB, PSOL e PSTU), as organizações políticas sem registro eleitoral, os movimentos sociais, o movimento sindical, a intelectualidade de esquerda e as organizações de resistência e luta dos trabalhadores. Isto seria feito com o fim de conformar eixos centrais em torno dos quais poderíamos constituir uma alternativa política, não apenas para participar do processo eleitoral, mas para contrapor ao projeto conservador uma alternativa socialista e popular.

Ainda que tal proposta tenha encontrado uma receptividade, principalmente em parte significativa da intelectualidade de esquerda e entre os movimentos sociais que buscam diferenciar-se da lógica de inércia e amoldamento hoje dominante nas direções sindicais, estudantis e em outras entidades de massa, a dinâmica interna e os compreensíveis interesses imediatos, tanto do PSOL como do PSTU, acabaram por centrar o debate nas pré-candidaturas. Assim fazendo, subestimaram e postergaram a discussão programática e a construção política junto aos trabalhadores e movimentos.

Acreditamos que não se trata de uma mera escolha de nomes, mas fundamentalmente de envidar esforços para a construção de uma necessária frente permanente de caráter anticapitalista e antiimperialista, para além das eleições, frente esta que, em unidade na luta de massas, incorpore organizações políticas e sociais orientadas ao socialismo.

O impasse no PSOL e a possibilidade real de apoio à candidatura de Marina Silva inviabilizam qualquer possibilidade de uma frente política que envolva o PCB. Em nenhum momento nosso Partido foi procurado para partilhar de qualquer avaliação sobre linhas programáticas, tática eleitoral ou perfil de candidaturas que pudessem, ainda que remotamente, levar a esta alternativa, a nosso ver, descabida. Tampouco fomos procurados para dialogar sobre estes temas com os companheiros do PSTU, que já promovem o lançamento da sua pré-candidatura à Presidência da República.

A posição do PCB é de reafirmar que a tática eleitoral não deva priorizar o raciocínio de “viabilidade eleitoral” em detrimento do caráter político de classe da disputa, eixo sobre o qual os trabalhadores devem formular seu programa contra-hegemônico e construir formas e meios de ruptura face ao pacto político-social das classes dominantes e seus aliados.

O perfil político de Marina Silva e, ainda mais nitidamente de sua legenda partidária, é claramente formatado nos limites da ordem do capital e essencialmente subordinado a um método político que em nada se diferencia da tradicional forma manipulatória no debate de questões relevantes (no caso a ecológica), buscando atrair os trabalhadores para um projeto que, na essência, não corresponde aos seus interesses históricos.

Neste sentido, respeitando os partidos que se aliam na luta contra o governo Lula e o projeto conservador, revestido ou não de vernizes sociais ou eco-capitalistas, sempre reafirmamos a necessidade de método e ação políticos de mobilização para a construção dos eixos programáticos socialistas e populares, no sentido da criação de uma nova e concreta alternativa de poder para os trabalhadores da cidade e do campo.

Infelizmente, o adiamento da decisão do PSOL para março de 2010 e a quase unânime aprovação, por sua direção, da abertura de negociações com o PV, além do lançamento unilateral de candidaturas, praticamente inviabilizam a possibilidade de reedição e, menos ainda, da ampliação da Frente de Esquerda.

Face a este quadro, o PCB reafirma a necessidade de uma alternativa orgânica de esquerda, socialista, anticapitalista e antiimperialista, constituída como elemento estratégico fundamental na luta dos trabalhadores pelo poder político, para além dos marcos impostos pelo calendário político-eleitoral.

Neste sentido, resta-nos apelar para que essas forças de esquerda assumam a responsabilidade diante da conjuntura política e da história, deixando de submeter os objetivos estratégicos de construção da alternativa de poder popular e socialista a uma tática despolitizada em torno de nomes e ao pântano das soluções institucionais imediatas.




PCB – Partido Comunista Brasileiro – Comitê Central
Novembro de 2009

24/11/09

LIBERDADE PARA CESARE BATTISTI !

Os editores das publicações mencionadas abaixo defendem que o Governo brasileiro deve ratificar o ato de seu Ministro da Justiça que, no dia 13 de janeiro de 2009, concedeu asilo político a Cesare Battisti. Neste sentido, o Poder Executivo, no legítimo exercício de suas prerrogativas constitucionais, deve, sem hesitação, rejeitar a hipótese da extradição deste cidadão italiano, autorizada, mas não determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Por nossas convicções democráticas e de esquerda, entendemos que a concessão de refúgio político a Cesare Battisti é uma decisão soberana, legal e de plena legitimidade do Estado brasileiro.

Novembro de 2009

ANTÍTESE
CAROS AMIGOS
CRÍTICA MARXISTA
HISTÓRIA & LUTA DE CLASSES
IMPRENSA POPULAR
ISKRA
LUTAS E RESISTÊNCIAS
MAISVALIA
MARGEM ESQUERDA
MARXISMO VIVO
NOVOS RUMOS
NOVOS TEMAS
PÁGINA 13
PRINCÍPIOS
TEORIA E DEBATE

20/11/09

ZUMBI DOS PALMARES (20.11.1655 - 20.11.1695).

Solon Dias Santos

(Militante do PCB-São Paulo)

Zumbi dos Palmares foi aprisionado aos três meses de idade, em Palmares, Alagoas, pela expedição de Brás da Rocha Cardoso, em 1655, e dado ao padre Antônio de Melo, em Porto Calvo (Alagoas), que o batizou com o nome de Francisco e o criou e o educou até a idade de 15 anos. Aos dez anos de idade, Francisco já sabia escrever e fazer conta e falar corretamente Latim e Português (o idioma pátrio não era o mais falado na época). Francisco ajudava o padre nos afazeres cotidianos da paróquia, servindo inclusive como coroinha da igreja local.

Aos 15 anos de idade, fugiu para Palmares indo morar com seu tio, Ganga Zumba, líder do quilombo de Palmares. Ganga Zumba era o título que os negros cabindas atribuíam à sua divindade suprema.

Palmares distava, segundo alguns, a 30 léguas (180 km) ao sertão e cerca de 16 léguas (96 km) da cidade de Porto Calvo, em região onde predominava as palmáceas. Essa mata se estendia do cabo de S. Agostinho (cidade do Cabo, Pernambuco) até o curso inferior do rio S. Francisco (próximo à cidade de Penedo, Alagoas).

Os primeiros mocambos foram construídos, na região, por volta dos anos 1602-04. Aos poucos, os arraiais se multiplicaram, principalmente a partir da invasão holandesa. O período de ocupação dos holandeses, em Pernambuco (1630-54), favoreceu e muito a fuga dos escravos para os quilombos, entre os quais se destacava Palmares, o maior de todos.

Durante sessenta anos, Palmares gozou de certa tranqüilidade se desenvolvendo como uma sociedade de traços socialistas, ao estilo do socialismo tribal das comunidades ancestrais africanas, notadamente as de Angola. Foi em Palmares que se constituiu o primeiro governo livre da América.

Quilombo é uma concepção urbanística africana correspondente às nossas cidades, mas de outro feitio, respeitada as diferenças culturais daqueles povos. Os quilombos da serra da Barriga (Alagoas) desenvolveram-se bastante praticando a policultura agrícola e comercializando seus produtos com as diferentes vilas da região.

Segundo alguns cálculos, Palmares chegou a contar com 20 mil habitantes, população considerável para a época. Na realidade, eram vários quilombos, sendo três deles os maiores e Palmares era, por assim dizer, a capital, o centro administrativo e militar da república palmarina. A capital de Palmares era Macaco, ou Cerca Real de Macaco, devido às fortificações, às paliçadas de Macaco, à semelhança das aringas dos sobas africanos.

Francisco, pela formação cultural, pelo conhecimento adquirido e pela iniciativa que tomava frente às diferentes demandas da comunidade, logo assumiu a liderança de sua comunidade, sendo eleito, aos 17 anos de idade, Zumbi dos Palmares, cargo semelhante ao de Ministro da Guerra. Zumbi significa: a força do espírito presente.

Como ministro da guerra, mostrou-se grande estrategista militar, comparado a outros grandes estrategistas da história ocidental. Acredita-se que Zumbi era descendente de guerreiros imbangalas, ou jagas, da região africana que mais tarde se tornaria o país Angola.

Com a expulsão dos holandeses, os latifundiários, os capitalistas, os senhores-de-engenho da época começaram a assediar os quilombos, a perseguir os quilombolas, à semelhança do que fazem os latifundiários de hoje com os movimentos dos sem-terra.

Até a expulsão dos holandeses, as escaramuças contra Palmares visavam reaver escravo fugido, mas a partir de 1667, as invasões logo assumiram outro propósito, ou seja, apropriação das terras dos quilombolas. O sargento-mor, Manuel Lopes, em 1675, levou a guerra ao coração de Palmares, atacando sua capital, Macaco. Em 1677, outra expedição chefiada por Fernão Carrilho arrasou as plantações quilombolas, destruiu vários mocambos, inclusive o de Aqualtune, mulher de Ganga Zumba, matando um de seus filhos, Toculo, e aprisionando outros dois, Zambi e Acaiene.

Os sucessivos ataques a Palmares enfraqueceram o governo de Ganga Zumba, forçando-o à celebração de um acordo com o governo da classe dominante da época, altamente desfavorável aos quilombolas e que contribuiu para a ruptura das relações entre Zumbi e seu tio. O acordo dividiu a opinião popular, e a história nos ensina que um povo dividido é fácil ser dominado. Lembremo-nos do dito romano: divide et impera (dividir para reinar), princípio aplicado ainda hoje pelo imperialismo estadunidense no Iraque, Afeganistão etc.

O acordo com o Governo de Pernambuco consistia, em resumo, no seguinte: Ganga Zumba se mudaria para uma nova área da Região, não mais acolheria escravos fugidos, devolvendo, inclusive, aqueles não nascidos no Quilombo e reclamados pelos senhores-de-engenho, em troca o governo reconheceria o Quilombo como vila.

Vejamos, mais de perto, o significado do acordo para Zumbi. O governo da classe dominante concedia uma saída política para um grupo em particular, muito conveniente para Ganga Zumba que não tinha compromisso com a causa da abolição da escravidão. Era uma solução individual, não coletiva e quem sabe temporária. Tal proposta lembra os apelos dos religiosos atuais que pregam a salvação individual, ou dos novos ideólogos burgueses que pregam a iniciativa pessoal, do tipo, você S.A. Tais propostas isolam as pessoas e ocultam as causas da opressão, da exploração que estão na base das sociedades fundadas na propriedade privada dos meios de produção, sejam elas escravista, feudal ou capitalista.

Zumbi, além de esclarecido, era um homem compromissado, jamais trocaria a causa da libertação de todo um povo por um prato de lentilhas. Travou-se, então, uma queda de braço entre as lideranças de Zumbi e de seu tio. O fato é que Ganga Zumba foi morto, envenenado, cabendo, a partir de então, a Zumbi a condução da chefia do Quilombo.

Em 1692, o governo da classe dominante de Pernambuco contratou o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho para destruir Palmares. Este bandeirante era bastante conhecido, na região, pela crueldade, já tendo destruído, no Piauí, a mando dos latifundiários, muitas aldeias indígenas e matado seus habitantes.

O bandeirante sofreu, inicialmente, várias derrotas na tentativa de assaltar Palmares, que se localizava no alto da serra da Barriga, rodeada por cercas tríplices e por valetas, contando ainda com um sistema de sentinelas, alerta 24 horas. Os ataques a Palmares, porém, continuaram intermitentes, até sua derrota final, em 1694.

Domingos Jorge Velho não se dava por vencido, voltando a Palmares cada vez mais armado e com maior número de homens, até que numa calada noite de fevereiro de 1694, comandando entre 3 mil e 9 mil homens, com canhões, túneis cavados, atacou e destruiu Palmares. No corre-corre da escuridão, cerca de 200 negros caíram no precipício. Outros tantos foram assassinados e milhares aprisionados, quebrando, assim, a resistência audaz dos quilombolas.

Zumbi e alguns camaradas conseguiram escapar, recuando para a serra de Dois Irmãos, onde pretendia reorganizar a resistência. Um seu ajudante, porém, meses depois, foi capturado e sob tortura revelou onde ficava a nova base da resistência quilombola. Surpreendido, Zumbi lutou, mesmo assim, até a morte, que se deu em 20.11.1695.

A luta heróica de Zumbi nos ensina várias coisas, a saber: sem luta coletiva não há redenção, não há saída individual para os problemas sociais. Como as lutas coletivas dos negros depois de Zumbi não foram muito expressivas, a abolição da escravidão somente adveio em 1888, quase dois séculos após; a abolição não significou uma ruptura com o processo de dominação, ainda hoje há remanescentes quilombolas que reivindicam a posse de cerca de oito mil áreas entre agrícola e urbana, herança de seus antepassados; a solução para os problemas sociais da atualidade somente virá pela união dos explorados, nós, o proletariado, brancos, negros, indígenas e mestiços.

Zumbi dos Palmares tornou-se um símbolo da resistência contra a opressão, contra a exploração de uma classe social sobre outra; um símbolo da valentia, preferindo mil vezes quebrar-se a vergar-se aos desígnios da classe dominante.

solonsantos@yahoo.com.br

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