06/11/2008

O Sacro Império do Vaticano

“Nos tempos modernos, a Igreja Católica surge, invariavelmente, em paralelo com as teorias e as práticas de uma escola capitalista liberal que procura instalar e consolidar conceitos de um expansionismo ilimitado baseado nas novas tecnologias e nas audácias da livre iniciativa sem travões. O alvo é o lucro e a sua acumulação, nos quadros de uma proclamada «sociedade da abundância» edificada sobre os escombros das gerações anteriores”
Jorge Messias* - 06.11.08

A espessa crise económica e financeira em que o capitalismo mergulha volta a suscitar interesse pela história do passado recente e pelas facetas secretas do problema que se disfarçam entre as pregas das togas dos banqueiros. Nomeadamente (não hesitemos em afirmá-lo) pelo papel determinante que no «sobe-e-desce» das bolsas as centrais católicas desempenham. Esta questão é determinante.Como introdução a outras informações disponíveis, acerca do universo bancário que o Vaticano domina, poderá ajustar-se o texto de um autor italiano – Nino Lo Bello – que numa obra densamente fundamentada, intitulada «O empório do Vaticano» escreveu a certo passo: «Jamais esquecerei a primeira vez que estive num banco da Cidade do Vaticano a observar os “caixas” no seu trabalho, atendendo freiras, jesuítas, missionários e bispos. Num momento de acalmia, disse a um dos caixas: - “Suponho que alguns dos seus clientes, na sua qualidade de religiosos, não saberão muito de dinheiro”. Então, o jovem funcionário deu a resposta correcta a esta demonstração de ingenuidade, comentando com a precisão de uma calculadora: - “A minha experiência diz-me que todos eles sabem muito de dinheiro”». Lo Bello acrescenta depois ser sua intenção que o livro de que é autor «tente clarificar as relações do Vaticano com o cifrão do dólar, símbolo hoje tão poderoso como o da cruz». Esse é um trabalho que se impõe também desenvolver entre nós.Nos tempos modernos, a Igreja Católica surge, invariavelmente, em paralelo com as teorias e as práticas de uma escola capitalista liberal que procura instalar e consolidar conceitos de um expansionismo ilimitado baseado nas novas tecnologias e nas audácias da livre iniciativa sem travões. O alvo é o lucro e a sua acumulação, nos quadros de uma proclamada «sociedade da abundância» edificada sobre os escombros das gerações anteriores. Para que estes fins sejam rapidamente atingidos terão de subestimar-se as questões da segurança económica e as regras elementares da ética social. Dizia Kenneth Galbraith, um dos grandes mentores do capitalismo que «por assim dizer, a falta de segurança é inerente ao modelo de sociedade competitiva... mas há quem acredite que com paciência, fé e orações, não será impossível evitar simultaneamente o desemprego, a inflação e os controlos económicos» («Sociedade da Abundância», capítulos VIII e XXI). Galbraith escreve esta passagem com frio sentido de humor ...A expansão do Sacro ImpérioNo Vaticano, um contemporâneo de Galbraith partilhava as mesmas ideias. Bernardino Nogara (1870/1958) recebeu dos cardeais as funções de administrador de um fundo de 90 milhões de dólares, pagos pelo Estado italiano à Santa Sé a título de indemnizações pela extinção dos Estados Papais. Em lugar de pôr o dinheiro a render, Nogara aplicou-o nos negócios e em todo o mundo. O banqueiro lançou a sua primeira rede de informadores financeiros e passou a coordenar os dados recebidos através da malha internacional de núncios, bispos e especialistas católicos. Investia, recolhia os lucros e entregava-os a empresas dominadas pelo Vaticano. Então, essa empresa ou grupo de empresas depositava o montante na Suíça, creditava-se a si própria pelos juros que pagaria nos EUA e reinvestia o capital noutros negócios seguros. Estes capitais eclesiásticos e esta política financeira, já então tipicamente neocapitalista, aumentou depois com as aplicações das cláusulas monetárias do Tratado de Latrão (1929) que institucionalizou o reconhecimento do Vaticano por parte do estado fascista italiano. Mussolini pagou à Igreja 40 milhões de dólares, de uma só vez; mais 50 milhões através da transferência de acções da dívida pública; finalmente, aceitou responsabilizar-se pelo pagamento dos salários dos padres italianos residentes, pela isenção de impostos dos funcionários da Santa Sé e pela entrega à gestão eclesiástica das «corporações caritativas» que funcionavam em Itália. Por aqui podemos ver como, de certo modo, o contexto histórico de 1929 não era tão diferente do actual como agora se pretende. Entre ontem e hoje há um nítido paralelo: anos de bancarrota e de miséria, de desemprego maciço, de agravamento da insegurança económica e social. Mas, igualmente, anos doirados para a Igreja, trânsito aberto ao grande capital e às fortunas e espaços sociais vazios onde a Hierarquia manobra à vontade. Nogara viu na «grande crise» das bolsas o momento certo para comprar, vender e especular. Comprou por atacado grandes empresas petrolíferas falidas no mercado dos carburantes. Passou assim a controlar a “Italgás” (cuja maioria de capital a Igreja conserva) e o fornecimento exclusivo do gás a 36 grandes cidades italianas. Na área financeira investiu nos grandes bancos e mutualidades de reputação mundial, como o Banco di Roma, o Banco do Santo Espírito, o Crédito Rural, o Crédit Suisse, o JP Morgan, o Hambros Bank, o Chase Manhattan, o First National Bank, o Continental, etc., etc. Hoje, tantos anos passados, não é sem algum espanto que se constata estarem a surgir de novo os nomes desses gigantescos bancos falidos, comprados e ressuscitados por Nogara, nas listas de intervenção e socorro dos estados capitalistas aos grandes bancos para onde os governos canalizam biliões de dólares.Nogara morreu em 1958 e foi canonizado poucos anos depois. Bem podem os papas ficar gratos a este verdadeiro génio mau do capitalismo eclesiástico. Com ele, o Vaticano atingiu dimensões financeiras nunca vistas. Para além das áreas já referidas, a Igreja passou a dominar os mercados do imobiliário, dos seguros, da siderurgia, dos produtos alimentares, da hotelaria, do turismo, do ensino privado, dos desportos, da comunicação social, etc., etc. Inclusivamente, aplicou-se no fabuloso negócio dos armamentos. Um exemplo de que assim foi já nos tempos do fascismo italiano pode ir buscar-se aos contratos firmados entre a empresa de munições “Nogara” e Mussolini. A fábrica trabalhava noite e dia para fornecer explosivos às hordas fascistas que devastavam, nesse tempo, a Abissínia.O mito da «piedade» e do «filantropismo da igreja» agigantou-se nos tempo de Nogara e serviu para encobrir gigantescos negócios financeiros, mesmo aqueles que decorriam à margem da lei. A verdade viria a revelar-se um pouco após a morte do banqueiro, com os escândalos do Banco Ambrosiano, do cardeal Marcinkus, das fraudes fiscais, dos off-shores, das ligações com a Mafia e com crimes de morte nunca esclarecidos.Nada veio a acontecer aos grandes criminosos. Salvaram-nos os protectores de «longas vestes». As gigantescas empresas envolvidas nos escândalos mudaram as fachadas das suas holdings, dispersaram os seus lucros e continuaram, tranquilamente, a crescer. Por isso as vamos reencontrando nas listas de credores que o FMI financia principescamente.Dizer de outra maneira mas o mesmo...Antes de pormos ponto final a esta tentativa de esboço panorâmico do poder financeiro eclesiástico convirá dar-se relevo a um elo que liga o que aconteceu há meio século e o que agora volta a acontecer. As questões de detalhe são irrelevantes. O que interessa é analisarmos conteúdos. A partir de 1929, quando Nogara começou a comprar grupos de empresas falidas, estas traziam consigo passivos desastrosos. Eram milhões e milhões de liras de dívidas incobráveis. Nogara sentiu os riscos que corria e a necessidade de eliminá-los rapidamente. O grande negócio da compra de bancos (Roma, Santo Espírito, Crédito Rural) podia afundar-se sob o peso do montante das dívidas. Se assim fosse, a sonhada era neocapitalista ficaria por ali e o Vaticano correria sérios riscos.De uma forma imaginosa, Nogara conseguiu ultrapassar essa arriscada fase dos seus planos. Contando com a cumplicidade de Mussolini manipulou passagens da então recente Concordata de Latrão e deu-lhes uma «leitura» conveniente aos interesses do Vaticano. Na mesma linha de rumo Mussolini criou, a nível do Estado, o IRI-Instituto di Recostruzioni Industriale cuja finalidade principal era a gestão de fundos do Estado destinados a salvar empresas privadas e bancos em risco. Então, os bancos que Nogara adquirira foram maciçamente transferidos para o Tesouro fascista que os comprou, não aos preços correntes do mercado (isto é, desvalorizados) mas na base do seu valor original. Esta operação permitiu a Nogara e à Igreja fazerem um encaixe superior a 632 milhões de dólares. Razão tinha Pio XI ao constatar que «Mussolini foi o homem enviado pela Providência!».Depois, Nogara passou à fase seguinte da sua operação de recuperação da crise.O Tratado de Latrão incluia três alíneas (Nos. 29, 30 e 31) que isentavam de impostos as chamadas «corporações eclesiásticas», isto é, as instituições religiosas directamente geridas pelo clero. Então, Nogara propôs e defendeu a tese de que, nesse sentido, «eclesiásticos» eram todos os institutos católicos, à luz do direito canónico e da tradição. O IOR, por exemplo (o Banco do Vaticano) devia ser reconhecido como «um Templo a fazer o trabalho de Deus». Mussolini deixou-se facilmente convencer e durante os anos negros do fascismo a Igreja italiana jamais pagou impostos. Somou, assim, milhões e milhões de mais-valias.Não tem sido puro acaso a forma como no mundo católico a constituição de gigantescos grupos financeiros tem vindo a acompanhar o desenvolvimento das «sociedades civis». Por um lado, acumulação de lucros astronómicos, subida em flecha do custo de vida e do desemprego, invocação da crise económica para justificar a supressão de direitos e conquistas dos trabalhadores. A «crise» será paga com o sangue dos pobres e com a engorda dos ricos.Por outro lado, despesas sumptuárias do Estado capitalista, abertura ao grande patronato, fusão de grandes bancos e empresas, destruição consciente das pequenas e médias empresas como forma «sanitária» de protecção dos grandes monopólios, constante desvio de verbas orçamentais para os bolsos dos banqueiros ou para os cofres do Vaticano. Em tudo isto a Igreja participa alegremente, distribuindo bênçãos abundantes aos seus amigos. E o fosso abismal entre ricos e pobres não cessa de se aprofundar.Uma coisa é certa: o figurino criado pelo Tratado de Latrão e pelas várias Concordatas firmadas pela Igreja Católica com os Estados capitalistas continua válido e funciona. Tem caboucos profundos nas desigualdades e na injustiça. Tem que ser destruído como qualquer doença que causa sofrimento e morte. Não se «reconverterá».

04/11/2008

Grupo de Estudos Caio Prado Jr.

O Grupo de Estudos Caio Prado Jr. volta a se reunir, desta vez o debate será a Crise do Capitalismo Mundial. Todos estão convidados e o encontro não pressupõe inscrição, basta aparecer e participar do debate.

Dia: 08/11/2008

Horário: 09:30h

Local: Sindicato dos Químicos de Campinas e Região, na Avenida Barão de Itapura, 2022, Jardim Guanabara, Campinas/SP.

Democratas alertas contra possibilidade de fraudes na eleição


O democrata Barack Obama lidera as últimas pesquisas, mas seus partidários estão atentos para a possibilidade de fraudes, especialmente na Flórida, como já ocorreu em eleições anteriores. Jornalista Greg Palast adverte que até 6 milhões de eleitores podem ter seus votos anulados por conta de fraudes na Flórida e no Colorado. Mas no quadro atual, nem isso tiraria a vitória de Obama.

Por Clarissa Pont

A campanha pela Casa Branca chega à reta final, a poucas horas da abertura dos centros de votação, com o democrata Barack Obama e o republicano John McCain multiplicando comícios em todo o país. A eleição presidencial estadunidense desta terça-feira (4) promete ser histórica, com a possibilidade de ter o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Nas últimas horas, Obama faz campanha na Flórida, na Carolina do Norte e na Virgínia. Já McCain, atrás em todas as consultas de opinião pública, promove uma verdadeira maratona eleitoral, com comícios em sete estados, da Flórida ao Arizona. Cerca de 153 milhões de americanos estão inscritos nas listas eleitorais, e especialistas prevêem um nível de participação elevado que poderia, até, superar o recorde histórico de 63% de votantes, estabelecido em 1960. Cerca de 20% dos eleitores já votaram por antecipação. Como nas últimas semanas, as pesquisas publicadas nesta segunda-feira foram favoráveis a Obama. Segundo o site independente RealClearPolitics (RCP), que estabelece uma média das pesquisas publicadas, o candidato democrata tem uma vantagem de sete pontos em relação a seu adversário republicano. Porém, devido à complexidade do sistema de votação, o mais importante não é o número de votos, mas a vitória em alguns estados-chave como Ohio, Pensilvânia e Flórida. Em 2000, George W. Bush foi eleito presidente com menos votos que seu adversário democrata Al Gore.“A preocupação agora é convencer as pessoas a realmente votarem. A imprensa dedicada à população afroamericana segue afirmando que a eleição não está ganha, que se as pessoas ficarem em casa, a mudança não acontecerá. Também há orientações para que as comemorações sejam respeitosas, comedidas. ‘Lembrem-se que o ódio de certos grupos estará tão aguçado quanto a sua alegria’, é a frase que tem sido dita”, conta Lis Paz, brasileira que mora em Nova Iorque.“Hillary Clinton falou na manhã desta segunda, numa emissora voltada para o público negro, que, em geral, os presidentes eleitos respeitam o final do mandato do seu antecessor, mas que Obama não ficará calado até janeiro. Há muito o que mudar, destacou Clinton”, informa Lis. O candidato democrata à Casa Branca, Barack Obama, lidera nos cruciais Estados de Ohio e Pensilvânia, apesar da vantagem ter diminuído no final da campanha, aponta uma pesquisa da Universidade Quinnipiac divulgada nesta segunda feira. Segundo a mesma sondagem, a Flórida permanece indefinida. No Estado, o democrata lidera com 47% a 45%, dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais. O resultado é o mesmo da última sondagem no Estado. "O senador Obama parece capaz do melhor resultado de qualquer candidato democrata entre os eleitores brancos em uma geração, voltando pelo menos aos patamares de Jimmy Carter, em 1976, ou talvez de Lyndon Johnson, em 1964", disse Peter Brown, diretor-assistente do Instituto de Pesquisas da Universidade Quinnipiac. Desde 1960, nenhum candidato à presidência dos EUA venceu sem conseguir pelo menos dois desses três Estados.O centro de pesquisas Gallup aponta Obama oito pontos à frente de seu adversário, ao dar a ele 51% das intenções de voto, contra 43% de McCain. Já a rede de televisão CNN situa o democrata sete pontos à frente, com 53% das intenções contra 46% de McCain. Keating Holland, responsável pela divisão política da CNN recomendou que os números sejam encarados com cautela. Segundo ele, nos Estados Unidos, cerca de um em cada dez eleitores costumam se decidir nos últimos dias da campanha. “A campanha nas ruas tem algumas coisas que chamam atenção, como muitos adesivos a favor de Obama escritos em hebraico. A comunidade judaica, inclusive em Israel, está com Obama, apesar das tentativas republicanas de apavorar a população inteira falando de possíveis relações do democrata com terroristas", relata Lis Paz. “Um adesivo muito popular é o ‘01-20-2009 Bush's last day’. Em alguns carros, ele está acompanhado pelo adesivo do Obama e, em outros, pelo símbolo da paz. A revista que vem encartada com o New York Times comentou, há duas semanas, a mudança de imagem de McCain durante esta campanha, tentando agradar a todos e perdendo a identidade, o que me fez lembrar muito do Geraldo Alckmin das últimas eleições. De qualquer forma, existem muitos adesivos e placas em frente às casas de McCain, aparentemente Obama está em maior número”, observa ainda Lis.Possíveis fraudesUma das preocupações dos democratas é quanto aos rumores insistentes de fraudes na Flórida. Segundo o jornalista Greg Palast, os rumores não são apenas boatos. Autor de "A melhor democracia que o dinheiro pode comprar", no qual demonstra como votos foram fraudados na eleição de 2000, repórter investigativo da BBC e do jornal inglês Observer, ele estima que 6 milhões de eleitores poderão ser impedidos de terem os votos contados por causa de fraudes na Flórida e no Colorado. "Mas a vantagem de Obama é tão grande que, até agora, isto não será suficiente para impedir sua eleição", diz Palast, que também é professor da Universidade de Chicago.“Na Flórida, estão impedindo as pessoas de votar através de um sistema que eles chamam de verificação de eleitores. Nunca se fez isso antes, simplesmente porque nos Estados Unidos não existe nem carteira de identidade. Isto afeta especialmente os eleitores de primeira viagem - e dois terços deles votam em Obama. Este sistema já restringiu o direito de votar de 85 mil pessoas, quase todos negros, o que combina com uma longa história de racismo na Flórida. E, claro, lembremos que este foi o estado onde George W. Bush roubou a eleição em 2000, não deixando votar os eleitores respondendo a algum processo ou tendo algum registro policial”, afirma Palast.As próximas horas mostrarão a exata dimensão desse temor. Rescaldados pelas últimas eleições, os democratas estão mais atentos do que nunca para evitar uma surpresa desagradável na reta final.
Fonte: Agência Carta Maior