20/03/2009

França enfrenta greve geral

Após serem atingidos por ovos jogados por trabalhadores que bloqueavam a entrada da fábrica de pneus da Continental às margens do rio Oise, diretores da fábrica foram vistos entrando sorrateiramente por uma entrada lateral cujo acesso se dá por barco.
"As pessoas estão perturbadas", afirma Christian Lahargue, um funcionário da Continental que corre o risco de ser demitido. "Vamos fazer de tudo para manter esta fábrica aberta."
Este impasse agressivo no norte da França às vésperas de uma greve nacional sugere que a tensão social está aumentando e contribuindo para a impressão de que o outrora confiante Nicolas Sarkozy, o presidente da França, está perdendo o passo.
A segunda maior economia da zona do Euro deverá enfrentar distúrbios hoje, por causa de uma greve nacional convocada por sindicatos, que deverá contar com centenas de manifestações em protesto contra a política econômica e o programa de reformas de Sarkozy.
Sindicalistas prometeram superar a última greve, feita em janeiro, quando entre 1 milhão e 2,5 milhões de pessoas foram às ruas.
A escala dos protestos de sete semanas atrás pegou o governo de surpresa, forçando-o a oferecer ? 2,6 bilhões (US$ 3,38 bilhões) em pagamentos extras de auxílio-desemprego e corte de impostos para famílias de baixa renda. Mas as concessões não satisfizeram os sindicatos, nem impressionaram a população.
Segundo uma pesquisa de opinião feita pelo instituto Ifop para a revista "Paris Match" , 78% dos franceses consideram a greve de hoje justificada. Os franceses "deram autorização ao movimento sindical para articular sua oposição a Nicolas Sarkozy", afirma Stéphane Rozès, presidente-executiva do instituto de pesquisas CSA.
De acordo com outra pesquisa, os franceses acreditam que Olivier Besancenot, o líder trotskista da extrema esquerda, tem tanta "credibilidade" quanto o presidente.
Sarkozy está na defensiva desde o começo do ano, com o agravamento da situação da economia. O governo foi lento em reagir a uma greve geral de seis semanas e a tumultos em Guadalupe, um território francês no Caribe.
O presidente vem encontrando oposição dentro de seu partido de centro-direita em uma série de questões, do retorno da França ao comando militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) à redução da carga tributária para os ricos.
Sarkozy foi forçado a recuar na reforma universitária, uma de suas principais medidas de modernização, em meio a temores de que um movimento de protesto estudantil liderado pela extrema esquerda pudesse se tornar violento. A concessão preocupou alguns empresários. "Os mais radicais estão conseguindo resultados", diz Maurice Lévy, presidente-executivo do grupo de propaganda Publicis.
Sarkozy tem motivo para se sentir ressentido. A economia francesa deverá se sair bem melhor que as de seus vizinhos depois que Sarkozy implementou rapidamente um plano de socorro bancário, garantias de empréstimos para pequenas empresas, seguro de crédito comercial bancado pelo governo e outra medidas para manter o crédito fluindo para a economia.
Ele mobilizou o outrora intervencionista e desdenhoso Estado francês e entendeu a mensagem que estava sendo passada pela população com sua crítica ao capitalismo financeiro.
Mas, ao mesmo tempo em que celebra o retorno do Estado, Sarkozy está se agarrando às suas metas de cortar os impostos, diminuir a burocracia do governo e conter os gastos.
É por isso que os franceses acreditam que as políticas de Sarkozy "não são coerentes, eficientes ou justas", diz Rozès. Os franceses sentem que os bancos estão sendo ajudados com poucos limites, enquanto o governo vem dando pouca ajuda às famílias comuns.
A oposição a Sarkozy deverá se concentrar na redução dos impostos para os ricos, o chamado escudo que limita o imposto de renda devido de um indivíduo a 50% da renda. Sindicatos e alguns membros do partido do presidente não querem isso. Sarkozy reage, reforçando sua imagem de amigo dos ricos.
Não está nem um pouco claro se a tensão social vai acabar resultando em um movimento político coerente capaz de paralisar o governo Sarkozy. "Ele não está numa espiral de queda", afirma Zaki Laidi, da Sciences Po, que aponta para a confusão entre os socialistas da oposição e diz que as críticas da população e dos sindicatos ao presidente são bastante difusas. "Não estamos na iminência de uma greve geral."
Mas outros observadores temem a possibilidade de tumultos. "O verdadeiro problema para qualquer um é saber como a opinião pública vai evoluir", diz Lévy. "Será que as pessoas vão acreditar que com a economia mundial em tamanha dificuldade elas precisam ficar calmas e razoáveis, além de trabalhar juntas para superar tudo isso? Ou será que vai levar as pessoas a atos desesperados? Minha sensação é de que não chegamos lá ainda, mas poderemos nos encontrar em uma situação com as sementes de um descontentamento muito profundo e uma espiral negativa que poderão levar a repetidas greves. Isso iria forçar o governo a desistir."

Crise provoca temporada de protestos na Europa


De São Paulo19/03/2009

Sindicatos abriram uma temporada de protestos de rua na Europa. Desde o mês passado, manifestantes liderados por entidades de trabalhadores têm saído às ruas quase toda semana para exigir dos governos a adoção de medidas que evitem demissões, cortes salariais e de benefícios sociais por conta da crise financeira. A região está sendo duramente atingida pela recessão mundial.
Hoje, uma greve geral convocada por oito federações sindicais deve comprometer o funcionamento de escolas, hospitais, do sistema de transporte e até a produção de energia das usinas nucleares em várias cidades da França, a segunda maior economia da zona do euro. O objetivo é cobrar do presidente Nicolas Sarkozy medidas mais amplas dos que a já anunciadas para proteger os trabalhadores e as famílias de baixa renda dos desdobramentos da crise. Líderes sindicais esperam que o ato reúna mais gente do que o ato realizado em janeiro, quando 2,5 milhões de franceses foram às ruas e acabaram forçando Sarkozy a fazer concessões adicionais a um pacote de estímulo lançado pouco antes (leia texto ao lado).
Além da França, na Alemanha, a maior economia da Europa, 15 mil trabalhadores da Opel - empresa ligada à General Motors - protestaram em 26 de fevereiro pedindo que a montadora americana engavetasse planos de fechamento de unidades na Europa.
Cinco dias antes, quase 100 mil pessoas ocuparam as ruas de Dublin, na República da Irlanda, num ato contra a forma com que o governo vinha lidando com a crise e particularmente contra os planos de aplicar uma dedução das aposentadorias dos 350 mil funcionários públicos.
Ainda em fevereiro, trabalhadores do setor de energia no Reino Unido já haviam organizado uma série de protestos e paralisações. O alvo das queixas era a contração de trabalhadores estrangeiros que aceitavam desempenhar a mesma função dos britânicos por salários menores. As mobilizações contra a mão-de-obra estrangeira chegaram ao fim em 5 de fevereiro quando a francesa Total aceitou contratar mais britânicos na sua refinaria de petróleo de Lindsey.
O desemprego é um dos efeitos mais visíveis da crise britânica. Em fevereiro, o número de desempregados passou dos 2 milhões, o maior patamar desde 1997.
No dia 6 de março, foi a vez de trabalhadores poloneses - principalmente os da indústria bélica - saírem às ruas para defenderem seus empregos. O ato reuniu cerca de 10 mil pessoas que protestavam contra demissões no setor após o governo ter ter enxugado o orçamento da Defesa. Em Gdansk, 3 mil trabalhadores protestaram contra os planos da empresa de energia Energa de corte de postos de trabalho.
Uma semana depois, dezenas de milhares de trabalhadores portugueses protestaram em Lisboa contra as medidas que o governo do primeiro-ministro, o socialista José Sócrates, vinha adotando. Sindicatos classificavam as políticas como responsáveis pelo aumento do desemprego e que além disso beneficiavam os mais ricos.
Trabalhadores também saíram às ruas na Bósnia, Bulgária, República Tcheca, Grécia, Hungria, Lituânia, Letônia, Montenegro, Rússia e Ucrânia.
A Confederação Sindical Europeia (ETUC, na sigla em inglês) lançou uma agenda de "dias de ação" contra a crise para maio em pelo pelo menos quatro capitais do continente: Madri, Bruxelas, Berlim e Praga. Os atos da campanha intitulada "Lute Contra a Crise - coloque as pessoas em primeiro lugar", estão marcados para os dias 14, 15 e 16 de maio.
"Movimentos sociais de protesto estão ocorrendo em muitos países europeus - como França, Islândia e Lituânia - à medida que os europeus se veem pagando o preço por uma crise provocada por uma desenfreada especulação", diz a entidade no material da campanha.
A confederação - que diz reunir 82 organizações e representar os interesses de 60 milhões de trabalhadores sindicalizados na Europa - defende o que chama de um Novo Contrato Social que priorize os trabalhadores e os cidadãos e que se concentre no emprego, no poder de compra e nos direitos fundamentais dos europeus.
Apesar do apelo provocado pelas manifestações recentes, o secretário-geral da ETUC, John Monks, diz que o sindicalismo europeu deve ir além do velho entusiasmo por protestos de rua. "Dado o momento ruim do mercado de trabalho e o desespero dos empregadores, esta não é hora de grandes militâncias", disse ele recentemente. "É hora de exigir estruturas de benefícios sociais, treinamento, consultorias e a adoção de sistemas mais justos de pagamento, de modo que quando a economia se recupere não haja a repetição de um surto de desigualdade visto na década passada."
Em uma matéria publicada semana passada, a revista britânica "Economist", diz que os períodos de "crise do capitalismo dão às organizações sindicais a chance de reviver e de se reinvetar".
Nos EUA, os sindicatos não realizaram até agora manifestações contra a crise como as da Europa. Seu campo de ação passou a ser outro. "Desde que Obama tomou posse em janeiro, John Sweeney, o secretário-geral do AFL-CIO, visitou a Casa Branca pelo menos uma vez por semana. George Bush o convidou uma vez em oito anos", diz a revista.
Os principais sindicatos americanos ajudaram a pressionar o Congresso a aprovar o pacote de estímulo econômico proposto por Obama. Aliados a siderúrgicas americanas, eles se empenharam especialmente para assegurar vantagens como a cláusula do pacote que garante preferência a empresas americanas na contratação dos projetos financiados pelo plano.
O pacote de Obama foi aprovado no início de fevereiro. Na época em que o plano estava em discussão no Congresso, os sindicatos organizaram algumas reuniões locais, para discutir o pacote em redutos eleitorais de congressistas que resistiam às medidas.
Nos EUA, apenas 12% da força de trabalho é sindicalizada. As regras do mercado de trabalho são muito flexíveis e a proteção para os trabalhadores desempregados é limitada. O seguro-desemprego foi ampliado temporariamente por causa da crise, de 26 para 59 semanas. E o pacote incluiu incentivos para ajudar os desempregados a pagar plano de saúde. (Colaborou Ricardo Balthazar).

Onda de protestos atinge a Europa


De São Paulo19/03/2009

Liderados por sindicatos de trabalhadores, manifestantes têm saído às ruas para exigir medidas contra demissões e reduções de salário.
Duramente atingida pela recessão, a Europa já vive uma onda de protestos que mudou a rotina de várias capitais. Liderados por sindicatos de trabalhadores, manifestantes têm saído às ruas quase toda semana para exigir medidas contra demissões e reduções de salário, além de benefícios sociais.
A França, segunda maior economia da zona do euro, deverá enfrentar distúrbios hoje, por causa da greve nacional que deve levar 2 milhões de pessoas às ruas. O objetivo é cobrar do presidente Nicolas Sarkozy medidas mais amplas do que as já anunciadas para proteger os trabalhadores e os mais pobres. Em janeiro, as manifestações pegaram o governo de surpresa e o forçaram a oferecer ? 2,6 bilhões em pagamentos extras de auxílio-desemprego e corte de impostos para a baixa renda. Mas as concessões não satisfizeram os sindicatos.
Além da França, já houve protestos na Alemanha, Irlanda, Reino Unido, Polônia, Portugal, Bósnia, Bulgária, República Tcheca, Grécia, Hungria, Lituânia, Letônia, Montenegro, Rússia e Ucrânia. (Com Financial Times).