27/12/2008

O Legado de Lenin


Vladimir Ilitich Ulianov (Lenin), nasceu em 10 de abril de 1870, na cidade de Simbirsk, Rússia. Seu pai, Ilia Nikolaevitch Ulianov, era pedagogo e ensinava os camponeses nas aldeias. A mãe Maria Alexandrovna Blank, apesar de não ter freqüentado a escola, aprendeu em casa várias línguas estrangeiras, que ensinou a seus filhos; tocava piano e gostava de ler.

Vladimir era o quarto filho de 8 irmãos, dos quais dois morreram ainda pequenos. Alexandre, o mais velho, foi executado em 8 de maio de 1887, com 21 anos de idade por ter participado de um atentado contra o tsar Alexandre III. Após a morte de Alexandre, a família, também já sem o pai (que havia falecido em 12 de janeiro de 1886), mudou-se para Kazan, onde Vladimir entrou na faculdade de Direito.

Na universidade, tornou-se membro de uma associação clandestina de estudantes conterrâneos de Simbirski. Essa organização liderou a primeira mobilização contra as autoridades universitárias em dezembro de 1887. Por ter se destacado na mobilização, por ordem do governador, foi preso juntamente com um grupo de estudantes. Em seguida foi expulso da universidade e da cidade de Kazan, sendo desterrado para uma aldeia – Kokushkino – onde passou a viver sob vigilância policial. Ali encontrou sua irmã Ana, que fora acusada de participar, juntamente com Alexandre, do atentado contra o tsar.

Lenin (pseudônimo que passou a usar para assinar os seus textos a partir de 1901),[1] após ter assistido a execução do irmão Alexandre sentenciou: “Não é esse o caminho que devemos seguir”.[2]

Enquanto esteve exilado em Kokuchkino, dedicou-se ao estudo da estatística e economia. Após um ano de isolamento, retornou para a cidade de Kazan com a intenção de voltar a estudar, mas esse direito lhe foi negado. Entrou para um círculo marxista organizado por N. Fedosseiev, um dos primeiros marxistas da Rússia, do qual foi profundo admirador e o tinha como mestre.

Em razão das dificuldades econômicas e da perseguição policial, mudou-se, em maio de 1889, com a família, para Sâmara, onde conseguiu autorização para prestar exames e concluir a faculdade de Direito.

Posteriormente, compreendendo que as disputas políticas se davam nos grandes centros, mudou-se em 1893, para Petersburgo, onde estabeleceu relação com círculos marxistas e, através deles, ligou-se ao movimento operário. O seu envolvimento com as atividades revolucionárias o levou cada vez mais para o estudo e a militância política. Viajou para diversos países da Europa, como Suíça, França e Alemanha, onde teve contato com as obras de Marx e Engels, que não haviam sido traduzidas para a língua russa. Copiou do alemão o livro A Sagrada Família, levando o manuscrito para seus companheiros. Buscou fortalecer a união dos círculos marxistas e se empenhou para criar um jornal político. Qualquer tipo de publicação era proibido na época e foi por esse intento que, ao publicar A causa operária, Lenin e um grupo de companheiros foram presos e, posteriormente, deportados para a Sibéria [3] por 3 anos.

Deportado e distante das atividades políticas, dedicou-se ao estudo, enviando suas conclusões por cartas, clandestinamente, aos que estavam em liberdade.

Foi através de Nadejda Krupskaia, sua noiva, presa e deportada para cumprir três anos de prisão na Sibéria, que ficou sabendo que, em março de 1898, um pequeno grupo de oito pessoas, na casa de um ferroviário, havia criado o Partido Operário Socialdemocrata da Rússia (Posdr). Essa notícia o animou a continuar os estudos sobre a revolução russa. Para ele, a organização partidária era fundamental, sem a qual o movimento operário estaria condenado à impotência. Esse partido deveria reunir, em suas fileiras, os melhores revolucionários, para que as demais forças sentissem a seriedade e a consistência da organização e se dispusessem a segui-los.

O partido fixou o seu programa sobre a luta pela transformação em dois tempos. Um, o “Programa Mínimo”, tratava das tarefas da revolução democrático-burguesa: derrubar o tsarismo e estabelecer a república democrática; jornada de trabalho de 8 horas; igualdade de direitos entre as nações e autodeterminação dos povos; eliminação da escravidão no campo. O outro, “Programa Máximo”, formulava as tarefas da revolução socialista: derrotar o capitalismo e estabelecer a ditadura do proletariado, onde todos os meios de produção fossem controlados pelos trabalhadores, assim como os meios de comunicação, as escolas e os bancos. Daí o partido se chamar “socialdemocrata”, pois deveria, inicialmente, lutar para estabelecer avanços democráticos, derrubar a monarquia, instalar a república e, num segundo momento, estabelecer uma nova ordem social.

O partido, para Lenin, deveria ser de novo tipo, ou seja, ser de ação revolucionária, orientar e conduzir a luta de classes, reunir os revolucionários e organizá-los em torno de tarefas imediatas, visando o enfraquecimento da classe dominante para levar a classe trabalhadora ao poder.


A teoria da organização


No período em que esteve na Sibéria, escreveu mais de 30 trabalhos. Destacam-se As tarefas dos socialdemocratas russos (1897), onde reafirma que havia uma profunda relação entre as tarefas democráticas e os socialistas e orientava qual devia ser o papel do partido; e O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (1899), onde apontou contradições existentes no campo e no desenvolvimento do capitalismo na Rússia. As suas obras mais importantes, onde expõe as concepções organizativas, são: Por onde começar?, Carta a um camarada, Que fazer?, Um passo à frente e dois passos atrás, Duas táticas da socialdemocracia e As teses de abril. É na Carta a um camarada (1901) e no Que fazer? (concluído em fevereiro de 1902) que estabeleceu as diretrizes da organização partidária e as linhas da construção do partido.

Na Carta a um camarada fez uma “diferenciação” entre o dirigente ideológico e o dirigente prático do partido. O primeiro deveria ser o jornal (Órgão Central), elaborado por um grupo de alta qualificação. O segundo, um grupo central (Comitê Central), ligado a outros comitês formados por militantes qualificados, com a capacidade de “distribuição de literatura, edição de panfletos distribuição de forças, designação de pessoas e grupos para execução de certas tarefas, preparação de manifestações em toda a Rússia, etc.”

Nesses órgãos de direção, não se deveria fazer distinção entre os operários e os intelectuais;ambos deveriam ser conscientes e se dedicarem por inteiro à atividade socialdemocrata. Por sua vez a composição deveria ser de forma simples. Bastava que os membros fossem indicados pela maioria, procurando não ampliar muito o número para que se mantivesse o alto nível. Como conseqüência da repressão intensiva, deviam funcionar com grupos reduzidos, tendo sempre o cuidado de preparar e indicar suplentes, para que, no caso de prisão de dirigentes, estes fossem de imediato substituídos.

Dessa estrutura central, deveria se estender a estrutura de base com círculos e grupos, evitando criar círculos apenas de discussão. Os melhores revolucionários deveriam estar nos comitês ou desempenhando funções especiais, como: imprensa, transportes, propaganda itinerante, brigadas de luta, grupos n exército e prestadores de outros serviços para a sociedade, como tirar documentos de identificação...As atividades práticas deveriam ser amplas e envolver o máximo de militantes.

Para garantir as regras conspirativas, era preciso evitar o contato direto com a redação do jornal e fortalecer o contato pessoal com os militantes. As reuniões e as assembléias gerais deveriam ser feitas raramente, pois a repressão teria muito mais facilidade para se infiltrar. Quando houvesse necessidade de assembléias de até 100 pessoas, o local deveria ser escolhido com critério, preocupando-se em selecionar os participantes vindos como representantes dos círculos de fábrica e de outros grupos. Mas isso não deveria estar regulamentado nos estatutos, visto que o comitê local deveria aproveitar todos os tipos de disfarces, até mesmo passeios no parque, para reunir os operários.

A distribuição da literatura era fundamental. Em uma noite, deveria ser possível atingir e mobilizar toda a população de uma cidade. Nesse sentido, a propaganda não deveria ser feita por um círculo separado em cada região. O Comitê Central deveria se encarregar disso, liberando alguns de seus membros para organizar, com unidade, essa tarefa, procurando envolver pessoas aptas, porque “AS pessoas realmente firmes no terreno dos princípios e capazes de ser propagandistas são muito poucas...”.

Para que o trabalho fosse feito de modo eficiente, era fundamental a disciplina, a integração entre os diferentes círculos, os relatórios das atividades e visitas permanentes. Assim, a organização deveria ser dirigida de forma centralizada por um grupo coeso e bem preparado, mas descentralizar a participação, envolvendo o máximo de grupos e círculos.

* * *

O texto “O trabalho artesanal dos economistas e a organização dos revolucionários”, constitui o quarto capítulo do livro “que fazer?”, onde Lenin aprofundou a crítica sobre as contradições da visão economicista, alertando para os seus adeptos queriam conferir à luta econômica um caráter político e, por isso, defendiam que não havia necessidade de se ter uma organização centralizada. Isso seria submeter a consciência à espontaneidade, que representava uma doença de crescimento do movimento.

No que consistia o método do trabalho artesanal? Esse método se baseava mais no entusiasmo do que na qualificação de seus executores. Esses, completamente desequipados, separados dos círculos e afastados dos velhos militantes mais experientes, atuavam sem qualquer plano. Todas as atividades, embora cativassem de imediato a população, conduziam ao fracasso, pois os militares conheciam quem eram os militantes que atuavam com métodos semelhantes “a bandos de camponeses armados de bordões contra o exército bem preparado”.

Essa “doença” do uso de métodos artesanais não residia apenas na falta de preparação, mas na estreiteza do conjunto do trabalho revolucionário, o que impedia de se chegar a uma boa organização. Para se livrar dos métodos artesanais, era necessário livrar-se do economicismo. As posições economicistas se davam duas direções: as oportunistas, que afirmavam que “os operários ainda não haviam formulado as suas reivindicações”; e as revolucionistas, que defendiam não ser necessário “criar uma organização de revolucionários”, bastando organizar a greve geral. Para Lenin, isso era impossível: a primeira tarefa devia de criar uma organização de revolucionários, “cuja profissão é a ação revolucionária”.

Insistiu na valorização da organização dos operários. Era preciso que “fossem mais numerosas e que suas funções sejam as mais variadas”. Mas, acima de tudo, insistiu que devia haver a organização dos revolucionários:”A luta política da socialdemocracia é muito maior e muito mais complexa do que a luta econômica dos operários contra os patrões e o governo ”. Acontece que pela repressão das mobilizações, na “Rússia o jugo da autocracia apaga, á primeira vista, toda a distinção entre a organização socialdemocrata e a associação operária... ”.

Fundamentalmente as razões da organização dos revolucionários: a) não seria possível um movimento revolucionário sólido sem uma organização estável de dirigentes; b) quanto mais a massa se integrasse à luta, maior seria a necessidade de ter essa organização; c) a organização deveria ser composta por pessoas que fizessem da atividade revolucionária a sua profissão; d) pelas condições do país, quanto mais restringissem a organização aos revolucionários profissionais, tanto mais difícil seria o trabalho da repressão; e) isso ajudaria a atrair pessoas de outras classes para a militância.

Para Lenin, a organização clandestina dos revolucionários não substituiria ou desprezaria o papel das massas. “A concentração de todas as funções clandestinas nas mãos do menor número possível de revolucionários profissionais não significa absolutamente que esses pensarão por todos, que a multidão não tomará parte ativa no movimento. Ao contrário, a multidão fará surgir esses revolucionários profissionais...” As massas passariam por um trabalho educativo. “A centralização das funções clandestinas da organização não significa absolutamente a centralização de todas as funções do movimento”. Nesse sentido, o militante deveria se comportar, diferentemente do secretário do sindicato, como um verdadeiro tribuno popular.

Atacou os que diziam que não havia pessoas para o trabalho revolucionário: “A sociedade oferece um número muito grande de homens aptos ao trabalho, mas não sabemos utilizá-los”. Existiam porque a classe operária oferecia, a cada ano, mais e mais operários descontentes; faltavam porque não havia articuladores para organizá-los e elevar a consciência ao plano dos revolucionários profissionais.

Lenin empenhou-se, também, em responder a questão: a organização centralizada não a levaria ao distanciamento das massas, afastando os revolucionários do trabalho loca l? Na verdade, a excessiva ligação ao trabalho local é que era o problema. Para superar esse problema, enfatizou a importância de perceber o espaço nacional e usou a imprensa como exemplo para mostrar que as publicações locais eram extremamente limitadas. Afirmou que “...Um bom aparelho clandestino exige uma boa preparação profissional de revolucionários e uma divisão rigorosamente lógica do trabalho. Duas condições impossíveis para uma organização local”.

A organização idealizada por Lenin chegou ao poder na Rússia em outubro de 1917. Os passos e os elementos táticos e estratégicos podem ser encontrados nas obras completas de Lenin, publicadas, em Moscou, em 55 volumes.

A vida agitada, a perseguição política que levou Lenin ao exílio por longos anos, os dois atentados a bala e a intensa atividade intelectual, abreviaram a sua vida. Suas forças foram se acabando aos poucos e, no dia 21 de janeiro de 1924, aos 54 anos de idade. Lenin – um dos mais ativos e completos militantes revolucionários da história do socialismo – faleceu.

Após a morte de Lenin, iniciou-se uma batalha interminável para decidir quem seria o seu sucessor. Destacaram-se dois nomes, que lideraram as divergências por quase duas décadas: Stalin e Trotsky. Lenin era a favor do segundo, mas, após a sua morte, Stalin articulou-se e assumiu o comando do governo, desencadeando uma feroz perseguição contra seus inimigos políticos, dentre eles Trotsky, assassinado em 1940, no México.


Extraído do livro “Teoria da Organização política – Escritos de Engels, Marx, Lênin, Rosa e Mao”, (São Paulo, Expressão Popular, 2005) de Ademar Borgo (org., pgs. 127 a 135. Texto de introdução às obras de Lenin: Carta a um camaradaI e ao quarto capítulo do Que fazer?, “O trabalho artesanal dos economistas e a organização dos revolucionários”.




[1] O pseudônimo Lenin apareceu pela primeira vez em 1901, no artigo publicado na revista Zariá com o título de “A questão agrária e os críticos de Marx”. Não há explicação para a escolha desse pseudônimo.
[2] Coletivo de autores do PCUS, Lenine: Biografia, Edições Avante – Lisboa, e Progresso-Moscovo, 1984, pg. 19
[3] Sibéria: para onde eram enviados os presos políticos por ser um lugar a 600 quilômetros da capital, região muito fria e de difícil acesso. Ninguém iria a lugar algum se tentasse fugir.

26/12/2008

Lei que cria 38 novos institutos federais de educação deve ser sancionada na segunda-feira

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Publicada em 26/12/2008
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O Globo
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RIO - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sanciona na próxima segunda-feira, dia 29, a lei que cria 38 institutos federais de educação, ciência e tecnologia no país. Com os institutos, presentes em todos os estados, aumenta o número de vagas em cursos técnicos de nível médio, em licenciaturas e em cursos superiores de tecnologia.

Os institutos estarão presentes em todos os estados, oferecendo ensino médio integrado ao profissional, cursos superiores de tecnologia, bacharelado em engenharias e licenciaturas. Os institutos federais estão sendo criados a partir da rede de educação profissional, que hoje conta com 185 unidades, entre centros federais de educação tecnológica (Cefets), escolas agrotécnicas federais e escolas técnicas vinculadas a universidades. Segundo o Lula, a idéia é atingir 354 unidades até 2010.

"É um absurdo que em 100 anos nesse país tenham sido feitas só 140 escolas técnicas. Como se formar os nossos adolescentes não fosse algo necessário. Fizemos um compromisso de em dezembro de 2010 ter mais 214 escolas técnicas funcionando nesse país", destacou o presidente Lula ao site do Ministério da Educação (MEC).

Os institutos vão oferecer metade das vagas ao ensino médio integrado ao profissional, para dar ao jovem uma possibilidade de formação já nessa etapa do ensino. Na educação superior, haverá destaque para os cursos de engenharias e bacharelados tecnológicos (30% das vagas). Outros 20% serão reservados a licenciaturas em ciências da natureza - o Brasil apresenta grande déficit de professores em física, química, matemática e biologia. Ainda serão incentivadas as licenciaturas de conteúdos específicos da educação profissional e tecnológica, como a formação de professores de mecânica, eletricidade e informática.

Os institutos terão forte inserção na área de pesquisa e extensão para estimular o desenvolvimento de soluções técnicas e tecnológicas e estender os benefícios à comunidade. Eles terão autonomia, nos limites da área de atuação territorial, para criar e extinguir cursos e para registrar os diplomas. Ainda exercerão o papel de instituições acreditadoras e certificadoras de competências profissionais. Cada instituto é organizado em estrutura com vários campi e proposta orçamentária anual identificada para cada campus e reitoria.

"Estamos oferecendo ao país um novo modelo de instituição de educação profissional e tecnológica, aproveitando o potencial da rede existente. Os institutos responderão de forma mais ágil e eficaz às demandas crescentes por formação de recursos humanos, difusão de conhecimentos científicos e suporte aos arranjos produtivos locais", diz Eliezer Pacheco, secretário de Educação Profissional e Tecnológica do MEC. Os institutos integram o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).

Alexandre Silva - Cherno

Diretoria Plena da UNE - Políticas Educacionais
Contato: (11)7243-1661
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Movimento A Hora é Essa!
Ousar lutar, ousar vencer!
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Partido Comunista Brasileiro - PCB
União da Juventude Comunista - UJC
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25/12/2008

José “Pepe” Mujica é escolhido candidato da Frente Ampla à presidência do Uruguai

O senador José "Pepe" Mujica foi escolhido ontem no Congresso da Frente Ampla para ser candidato à presidência do Uruguai, nas eleições que serão realizadas em outubro de 2009. Ex-líder guerrilheiro tupamaro, Mujica recebeu o voto de mais de dois terços dos delegados que participaram da eleição interna da Frente Ampla. Confira a entrevista que o senador concedeu à Carta Maior em fevereiro de 2005, durante a posse do presidente Tabaré Vázquez.
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Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior
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PORTO ALEGRE - O ex-líder guerrilheiro tupamaro e atual senador, José “Pepe” Mujica, foi escolhido ontem (14) para ser o candidato da Frente Ampla (coalizão que governa o Uruguai) à presidência da República, nas eleições gerais de outubro de 2009.
Mujica, de 74 anos, passou doze anos preso durante a ditadura militar uruguaia (1973-1985). Líder do Movimento de Participação Popular (MPP), Mujica recebeu o apoio de 1.694 delegados, mais de dois terços dos que estavam habilitados a votar na eleição interna. Na votação, da qual participaram 2.381 delegados, ele venceu seu principal oponente, o ex-ministro da Economia do governo Tabaré Vázquez, Danilo Astori. Também participaram da disputa o atual ministro da Indústria, Energia e Mineração, Daniel Martinez, o diretor do Escritório de Planejamento e Orçamento da Presidência, Enrique Rubio, e o prefeito de Canelones, Marcos Carámbula. Mujica, ainda deverá passar por outro teste em junho, quando será realizada uma convenção aberta para todos os militantes da coalizão, mas com a votação obtida ontem, ele já está sendo apontado pelos analistas como o candidato da Frente Ampla. Mujica foi um dos líderes da guerrilha tupamara que pegou em armas contra a ditadura militar que governou o país de 1973 a 1985. Junto com os principais dirigentes tupamaros, ficou mais de doze anos preso em quartéis uruguaios. Desceu ao fundo do poço, literalmente. Ele fez parte de um grupo que ficou conhecido como “os reféns”. Os integrantes deste grupo foram submetidos a um regime de destruição física, moral e mental que incluiu dois anos de encarceramento no fundo de um poço.
Foram, praticamente, enterrados vivos. Isolamento total. Neste período, conforme relatou em entrevista à Carta Maior (12 de fevereiro de 2005), aprendeu a conversar com rãs, ouvir o grito das formigas e a “galopar para dentro de si mesmo”, como forma de não enlouquecer. Sobreviveu. Saiu da prisão, junto com sua companheira de vida e de luta, Lucía Topolansky. Nas eleições de 2004, Mujica transformou-se em uma das figuras mais poderosas do Uruguai. Senador mais votado, foi escolhido para assumir o ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca. Na entrevista que concedeu à Carta Maior, durante a posse do presidente Tabaré Vázquez, Pepe Mujica contou um pouco dessa história e expôs algumas de suas idéias para ajudar a reconstruir o país e a América Latina. Publicamos a seguir alguns dos principais momentos desta conversa que guardam renovada atualidade: Trabalho e valor - O problema central que precisamos resolver é o trabalho, um fator de estabilidade fundamental. Se não resolvermos esse problema, fracassaremos.
O nosso problema é gerar trabalho, mas trabalho autêntico, que gere algum valor, que tenha um mínimo de produtividade e agregue algum tipo de conhecimento. Não se trata de ficar abrindo buracos, empregando algumas pessoas para abri-los e outras para fechá-los. Para enfrentar este tema, temos que utilizar todos os instrumentos que estiverem ao nosso alcance, aproveitando os mecanismos mais heterodoxos que possam existir.Conhecimento, a grande batalha – O que mais me assusta, na verdade, é a desvantagem tecnológica que sofremos (os países da América Latina). O recurso mais inesgotável que existe é a inteligência. A grande batalha que devemos enfrentar não é a batalha da propriedade, mas sim a da propriedade da inteligência. Trata-se de uma batalha no campo da universidade, no campo do conhecimento, da geração de conhecimento e tecnologia. Se não conseguirmos nos libertar nesta área, estamos ferrados.
Nosso projeto estratégico deve ser o de assaltar o poder com os canhões da inteligência. Poderemos andar de alpargatas, com roupas remendadas, o que queremos é meter coisas na cabeça. Ou fazemos isso, ou fracassamos. É preferível que nossos filhos vivam com certas dificuldades materiais, mas tenham vantagem na cabeça, vantagem no conhecimento.A questão da dívida – Estamos amarrados pelo problema da dívida. Eu me vejo velho, gritando contra o Fundo Monetário Internacional. Mas isso não muda nada. A gente grita, mas o Fundo continua igual, segue aí. O que é preciso mudar é nossa postura.
A mim, nunca colocaram um 45 na cabeça, obrigando que eu pedisse dinheiro emprestado. O problema é que estamos educados a pedir emprestado quando enfrentamos dificuldades. E eles, generosamente, nos emprestam. Não conseguiremos mudar o mundo com gritos, o que é preciso mudar, em primeiro lugar, é a nossa conduta. No dia em que aprendermos a viver com o que temos, estaremos livres.O projeto do socialismo – Eu acredito no socialismo como uma necessidade de caráter histórico. Se isso não ocorrer, creio que o mundo caminha para a destruição. Neste momento histórico, estamos trabalhando dentro das leis do sistema capitalista. Vamos pedir aos burgueses que trabalhem, não que sejam socialistas. Queremos que eles trabalhem, invistam e se endividem menos. Não vamos pedir o que eles não podem dar. Hoje estamos falando disso. O tema do socialismo é outra conversa. Como disse, creio que se trata de uma necessidade histórica, mas não creio que se possa criar uma sociedade melhor, com uma população analfabeta ou quase analfabeta, embrutecida no campo do conhecimento e da vida. Não se pode criar uma sociedade melhor com um povo primitivo e bárbaro, embrutecido. Nisso, creio que estou mais perto do velho Marx do que de Lênin.
A esquerda precisa enfrentar e resolver esse problema.Os vícios históricos da esquerda - Uma das características da esquerda em qualquer parte do mundo é sua tendência à atomização. Cada organização de esquerda costuma acreditar que possui a verdade revelada e que tem que lutar contra as outras organizações. E isso é visto como uma questão de princípio, capaz de fazer correr sangue. Então, para juntar a gente de esquerda, é horrível, em qualquer parte do mundo. É bom ter uma humildade de caráter estratégico diante dos compromissos que temos pela frente, que não são exatamente singelos, do tipo daqueles que autorizam a arrogância e a soberba como métodos de conduta. Outro problema que precisamos resolver é que a esquerda tem o mau hábito de crescer e perder de vista o pensamento estratégico, ficando imersa em movimentos táticos de curto prazo, perdendo a capacidade de pensar.
Precisamos ter a inteligência de superar nossas pequenezas e nosso chauvinismo ou então não vamos fazer nada. Se esses vícios continuarem, estamos fritos. Uma última coisa: como militantes, precisamos nos lembrar que as credenciais também envelhecem e devem ser constantemente renovadas. Cada conjuntura histórica exige que elas sejam renovadas. Não há nenhuma garantia de nada. Por isso, é importante olhar o passado, mas também é preciso perder o respeito. É preciso haver novos partos, é preciso vir gente nova.As feridas do passado – A vida tem muitas coisas amargas, mas também oferece reparações e reviravoltas.
O desafio é saber vivê-la com continuidade e ter a capacidade de se levantar quando se cai. Nós tivemos essa experiência (da prisão), não a buscamos, não a planejamos, aconteceu, de um modo que supera a imaginação de um escritor. Mas não vivemos para cultivar uma memória, olhando para trás. Acredito que o ser humano tem que saber cicatrizar suas feridas e caminhar na perspectiva do futuro. Pois não podemos viver escravizados pelas contas pendentes da vida; se fizermos isso, não viveremos o porvenir da vida, não viveremos o que está por vir. Eu tenho uma memória e suas recordações, como todo mundo. Não poderia ser diferente. E a memória é fundamental: aqueles que não cultivam a memória, não desafiam o poder. É uma ferramenta a mais para construirmos o futuro. Mas deixo uma coisa bem clara: o livro de minhas contas pendentes, este eu o perdi. É importante não se esquecer de nada, mas é preciso olhar para o amanhã, pois não vivemos se ficamos presos a recordações.Caminhos imprescindíveis – Eu discordo de Bertolt Brecht porque não creio que existam homens imprescindíveis, mas sim causas imprescindíveis, caminhos imprescindíveis.
A história é uma construção tremendamente coletiva, feita pela continuidade dessas causas e desses caminhos. E é assim que andamos, cada um colocando a sua pedra.Compromisso com a vida e a luta – Nos anos em que fiquei preso, nunca deixei de ser livre. Neste período, sempre tive essa sensação porque supunha que meus companheiros de cativeiro estavam na mesma situação. Eu os conhecia e sabia que íamos seguir na luta. Pode parecer uma monstruosidade o que vou dizer, mas dou graças à vida por tudo o que vivi. Se não tivesse passado pelo que passei e aprendido o ofício de galopar para dentro de mim, para não ficar louco de tanto pensar, teria perdido o melhor de mim mesmo. Me obrigaram a remover meu solo e isso me fez muito mais socialista do que antes.
O homem é filho de suas lutas e de suas adversidades. Alguns de nós tivemos a sorte de que a vida nos apertou, mas não nos fulminou. Nos deu licença para seguir vivendo e, em alguma medida, recolher o mel que pudemos no marco das amarguras pelas quais passamos. Se não fosse assim, nunca teríamos fabricado esse mel. Neste sentido é que digo que nunca estive preso, porque não puderam me derrotar, do mesmo modo que não puderam derrotar outros companheiros que não abdicaram de suas idéias. Eles triunfam quando conseguem nos fazer baixar os braços. Por isso, gostem ou não, o futuro é nosso, pois não puderam nos derrotar.