19/09/2010

A Esquerda Brasileira como integrante de um Brasil Negado e o Complexo de Mameluco do PSOL

*Robson de Moraes

A sociedade brasileira em seus encontros e desencontros, é retratada em inúmeras obras de diversos autores da mais diferentes correntes teóricas. Em algumas destas leituras está exposto um Brasil profundo, invisível aos olhos de uma elite que se esforça em desenraizar-se e travestir-se de moderna e global (no duplo sentido do termo, ou seja, mundializado e midiático), preservando preconceitos e práticas excludentes de um período colonial escravocrata, que insiste em se manter no ser e fazer presente de nossos dirigentes políticos e empresariais. Ensaios como Casa Grande e Senzala (Gilberto Freyre), Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), A Casa e a Rua (Roberto Da Matta), O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro), entre outros, revelam este Brasil negado pelos “Donos de Poder”, tal qual denominou Raymundo Faoro.

Em suas centenas de milhões de pessoas, o país é uma nação inacabada, efetivada por um Estado negador dos Diretos mais elementares e inalienáveis, produtora de uma absurda contradição: enquanto nos gabamos de ter alcançado a oitava economia do planeta (segundo o relatório do FMI para o ano de 2009), nos mantemos em septuagésimo quinto em qualidade de vida (levando em conta o IDH), atrás da Albânia e de Trinidad e Tobago. Temos Desenvolvimento Humano inferior a de países a pouco atolados em guerras civis como a Croácia e Montenegro. Na América do Sul estamos mais atrasados que o pequeno Uruguai, atrás da Argentina, do Chile e da contestada Cuba.

Já se tornou evidente que não há “Dois Brasis”, como nos apontou a clássica obra de Jacques Lambert e tão bem criticado por Chico de Oliveira em sua Crítica da Razão Dualista, mas uma perversa combinação que engloba realidades distintas em um mesmo Território, marcado pela heterogeneidade de Classes, Etnias, Culturas, Saberes e Economias.

O processo eleitoral de 2010 expressa todas estas contradições. Há um projeto dominante, fundamentado no aprofundamento da moderna economia (não tão) nacional em um mercado mundial cada vez tecnologicamente verticalizado e em profundo antagonismo com a horizontalidade da reprodução da vida cotidiana. Há uma intensa disputa sobre qual agrupamento do bloco dominante irá conduzir o Brasil ao nosso futuro imediato (Dilma ou Serra ?) de sociedade excludente com capacidade de produzir grandes corporações de origem local ou a sociedade excludente completamente subordinada aos interesses internacionais. É óbvio que não poderemos ser maniqueístas e não poderemos esquecer a alternativa de uma sociedade excludente com verniz ambiental

Neste pleito há ainda uma curiosidade eleitoral: a versão protagonizada pelo PSOL da “Dialética do Senhor e do Escravo” que poderíamos definir como uma espécie de Complexo de Mameluco. Tal qual no escrito de Hegel, a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, faz um enorme esforço de fazer-se reconhecido como força política diante da mídia e do conjunto de seus adversários. Ao privilegiar a busca do reconhecimento no outro dominante, acaba por reconhecê-lo como definidor dos parâmetros e das normas a serem adotadas. O Escravo, ao procurar estabelecer as condições de sua identidade no Senhor, acaba legitimando o papel de Senhor e consagrando sua subalternidade.

Ao rejeitar a participação no debate, entre as candidaturas de esquerda à Presidência da República, promovida pelo jornal Brasil de Fato como forma amenizar o isolamento promovido pela mídia aos agrupamentos da Esquerda Revolucionária Brasileira e garantir a presença em evento do Instituto Ethos (Organização vinculado ao empresariado paulista), o PSOL age como o mameluco filho de pai português e mãe indígena ou como um mulato, filho do mesmo pai lusitano e de mãe africana, miscigenação esta amplamente divulgada e difundida no imaginário social de nosso povo. Diante de um pai ausente, que cedo abandonou, o filho faz de tudo para ter o reconhecimento do pai, negando sua condição materna e afastando-se de tudo que possa lembrá-la, desqualificando-a e desconstruindo quaisquer laços de aproximação da mãe negada, sonhando com uma relação impossível com um pai, que na prática não o quer.

É nesta conjuntura adversa e diante de precaríssimas bases é que se impõe a tarefa de construção de um pólo aglutinador das Esquerdas, comprometidas com um processo de transformação revolucionária, que dê expressão política a milhões de deserdados, embrião de um Estado Popular, que assista às verdadeiras demandas de nossa gente. Pólo aglutinador que possa definitivamente compreender, perceber e organizar o brasileiro, não como apenas uma identidade a ter sua estima valorizada, mas acima de tudo, como uma forma plural, criativa e inventiva de se colocar no mundo, arquiteto de um novo Projeto e de uma nova hegemonia, que subverta o atual estado de coisas, que elimine os antagonismos vigentes, capaz de viver e prosperar em uma unidade da diversidade, que não renegue a dialética a um mero transformismo adaptativo de camaleão, conciliador por natureza, impotente por vocação e subalterno por vontade e mediocridade.

*Robson de Moraes é Geógrafo (membro da Associação dos Geógrafos Brasileiros), Professor e militante do Partido Comunista Brasileiro


17/09/2010

Como as corporações têm lucros por se associar a causas de caridade

Slavoj Zizek
Qui, 09 de setembro de 2010

Eu quero desenvolver uma linha de pensamento sobre um ponto: por que, na nossa economia, a caridade não é mais apenas uma idiossincrasia de algumas pessoas boas aqui e ali, mas o componente básico da nossa economia.
No capitalismo de hoje, há uma tendência crescente em juntar [ganhar dinheiro e caridade] em um único agrupamento, de modo que quando você compra algo, o direito anticonsumista de fazer algo pelos outros, para o ambiente e assim por diante, já está incluído dentro dele.
Se você acha que estou exagerando, eles estão em toda esquina. Entre em qualquer café Starbucks, e você vai ver como eles dizem explicitamente que - eu cito a sua campanha: "Não é só o que você está comprando, é o que você está comprando." E então eles descrevem para você. Ouça: "Quando você compra Starbucks, conscientemente ou não você está comprando algo maior do que uma xícara de café. Você está comprando uma ética de café. Através do nosso programa Starbucks "Planeta Compartilhado", nós compramos mais café do 'comércio justo' [Fair trade] do que qualquer outra empresa no mundo, garantindo que os agricultores que cultivam o grão recebam um preço justo pelo seu trabalho árduo. E nós investimos e melhoramos as práticas de cultivo do café e as comunidades ao redor do globo. É um bom karma do café." E um pouco do preço de uma xícara de café do Starbucks ajuda a mobiliar o local com cadeiras confortáveis, e assim por diante.
Isto é o que eu chamo de capitalismo cultural na sua essência. Você não compra apenas um café, você compra sua redenção por se um mero consumista. Você sabe que faz algo pelo meio ambiente, você faz algo para ajudar as crianças famintas da Guatemala, você faz algo para restaurar o senso de comunidade aqui.
Eu poderia continuar - como o exemplo quase absurdo que é chamado Tom Shoes, uma empresa norte-americana cuja fórmula é "um-para-um". Eles alegam que a cada par de sapatos que você comprar deles, eles doam um par de sapatos para alguma nação Africana. Um ato de consumismo, mas incluso esta o fato de que, você paga para fazer alguma coisa "[boa]".
Isso gera uma espécie de -como direi?- Um superinvestimento semântico ou encargos Você sabe que não é só comprar uma xícara de café. Ao mesmo tempo você cumprir uma série de deveres éticos. Esta lógica esta hoje quase universalizada.
Assim, meu ponto é que este é um curto-circuito muito interessante em que o próprio ato de consumo egoísta já inclui o preço de seu oposto.
Baseado contra tudo isto, penso que deveríamos voltar ao bom e velho Oscar Wilde, que ainda oferece a melhor formulação contra essa lógica da caridade. Permitam-me citar apenas um par de linhas, do início do seu A Alma do Homem sob o Socialismo, onde ele aponta que, a citar: "É muito mais fácil ter compaixão com o sofrimento que ter simpatia com as idéias."
[As pessoas] encontram-se cercadas por uma pobreza horrível, por uma feiúra horrível, pela fome terrível. É inevitável que sejam fortemente movidos por tudo isso... Assim, com intenções admiráveis, porém mal orientadas, muito seriamente o e muito sentimentalmente se determinam a tarefa de remediar os males que vêem. Mas os seus remédios não curam a doença: eles meramente se limitam a prorrogá-la. De fato, seus remédios são parte da doença. Eles tentam resolver o problema da pobreza, por exemplo, mantendo o pobre vivo, ou, no caso de uma escola muito avançada, divertindo os pobres.
Mas esta não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. O objetivo adequado é tentar reconstruir a sociedade sobre uma base onde a pobreza seja impossível. E as virtudes altruístas realmente impedem a realização deste objetivo... Os piores donos de escravos foram aqueles que eram gentis com os seus escravos, e assim evitaram que os que estavam sofrendo os horrores desse sistema se apercebessem dele, e que fosse compreendido pelos que o utilizavam... A caridade degrada e desmoraliza... É imoral o uso da propriedade privada, a fim de aliviar os horríveis males resultantes da instituição da propriedade privada.
Eu acho que essas linhas são mais verdadeiras do que nunca. Por mais que pareça agradável, uma renda básica, este tipo de trocas comerciais com os ricos, não é uma solução.
Há, para mim, uma série de outros problemas. Esta é para mim a última tentativa desesperada em fazer o capitalismo: não vamos descartar o mal, vamos fazer o próprio mal trabalhar pelo bem. 30 ou 40 anos atrás, estávamos sonhando com o socialismo com um rosto humano. Hoje a visão mais radical no horizonte da nossa imaginação é o capitalismo global, com um rosto humano. Temos as regras básicas do jogo, vamos torná-lo um pouco mais humano, mais tolerante, com um pouco mais bem-estar.
Vamos dar ao diabo o que pertence ao diabo, e vamos reconhecer isso, nas últimas décadas, pelo menos, até recentemente, pelo menos na Europa Ocidental. Eu não acho que em nenhum momento na história humana uma porcentagem tão relativamente alta da população viveu em tal liberdade relativa, com bem-estar, segurança e assim por diante.
Eu vejo isso de forma gradual, mas, no entanto seriamente, ameaçado.
Estou apenas dizendo que a única maneira de salvar [o liberalismo que nutrimos] é fazendo algo mais. Eu não sou contra a caridade, em um sentido abstrato. É claro que é melhor que nada. Mas temos que estar cientes de que existe uma hipocrisia aí. Por exemplo, é claro que devemos ajudar as crianças. É horrível ver uma criança cuja vida é arruinada por causa de uma operação que custa vinte dólares. Mas, no longo prazo, você sabe, como Oscar Wilde teria dito, se você opera a criança, ela vai viver um pouco melhor, mas na mesma situação que a produziu.
[Publicado em http://www.alternet.org - Tradução de ANA AMORIM].
Fonte: Adital - Quinta-Feira, 09 de setembro de 2010
http://www.youtube.com/watch?v=hpAMbpQ8J7g&feature=player_embedded

16/09/2010

Duas guerras: a de Afeganistão e a da Colômbia.

ANNCOL
Durante os últimos anos escutamos até o cansaço, a mídia desinformadora ao serviço do ganster governo narcoparamilitar de Uribe Vélez, dizer ao melhor estilo de Joseph Goebbels que a 'segurança democrática' liquidou a insurgência colombiana.
Como vulgares puxa-sacos do império tem exclamado sem parar: "A guerrilha está escondida na selva, está fugindo". “Estão comendo raízes". Fugindo sem rumo e desmoralizada". "As Frentes não têm comunicação com seus chefes". "Atacam desde o outro lado da fronteira". (risos e mais risos se escutavam diariamente no fundo das audições).
Ante iminente trunfo das forças oficiais o único que fica para a guerrilha é se render incondicionalmente.
Vã ilusão!
Examinando as cifras oficiais encontramos outra realidade.
Se compararmos o conflito colombiano com a guerra de invasão de EUA e seus aliados no Afeganistão, os dados concretos revelam que as baixas militares sofridas pela 'segurança democrática' na Colômbia, no confronto armado, durante esses oito anos, são o dobro das sofridas pelos EUA, a ISAF e outras variantes paramilitares nessa invasão, apoiada por Uribe e, para a qual ofereceu seus paramilitares para que fossem a matar afeganos.
Cifras oficiais:
País: Colômbia.
Fonte: Forças Militares.
Período: 2002 - 2010 "Segurança democrática" = "Terrorismo de Estado"
01. Soldados, policiais e agentes do DAS mortos no confronto: 4.752
02. Soldados, policiais e agentes do DAS feridos: 15.184. Destes, muitos ficam viciados em drogas, com transtornos mentais ou mutilados.
Total de baixas: 19.936
País: Afeganistão
Fonte: icasualties.org
Período: 2001-2010 "Guerra de invasão liderada pelos EUA."
01. Baixas mortais invasoras: 2.071
02. Militares invasores feridos: 7.266
Muitos deles ficam desempregados, mutilados, dependentes de drogas, desequilibrados.
Total de baixas: 9.337
Na Colômbia, as cifras deixam em evidência que o governo da 'moto-serra' e a grande mídia ocultaram sempre o fracasso da política imperial em seu propósito de exterminar a insurgência e o movimento popular.
A luta dos povos pela liberdade, a soberania nacional, a democracia, a paz com justiça social, NUNCA poderá ser silenciada e, muito menos, vencida pelos opresores.
A Nova Colômbia avança pelos campos e cidades, impregnada de povo, que enxerga já um novo amanhecer de liberdade para esse país.