26/05/2010

REDUÇÃO DA JORNADA PARA 40 HORAS: SEM LUTA E ORGANIZAÇÃO NÃO HAVERÁ CONQUISTA

24 Maio 2010
Renato Nucci Junior (Membro do Comitê Central do PCB)
A luta pela redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais é uma bandeira histórica dos trabalhadores brasileiros. Em 30 de junho de 2009 ela ganhou novo capítulo ao ser aprovada em uma comissão especial da Câmara dos Deputados, por unanimidade, a PEC 231-A de 1995, que propunha a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais. A aprovação foi muito comemorada pelo movimento sindical governista, que prometia fazer o diabo para que a emenda fosse encaminhada com urgência para votação.
Faz-se necessário esclarecer, todavia, que a comissão presidida pelo deputado Vicentinho (PT/SP), ex-presidente da CUT, em cuja gestão se fortaleceu no interior da central a concepção de sindicalismo propositivo e cidadão, analisou três PEC’s que versavam sobre o tema da redução da jornada de trabalho. A PEC aprovada pela comissão foi a 231-A, em tese menos agressiva aos interesses dos patrões, rejeitando-se outras duas de conteúdo mais avançado para os trabalhadores. Uma delas era a PEC 271 de 1995, de autoria do deputado Eduardo Jorge, à época do PT/SP, que propunha a redução da jornada diária de 8 horas para 6 horas e da jornada semanal de 44 horas para 30 horas semanais, à razão de 1 hora semanal a menos a cada ano. A PEC 271 frisava que essa redução não implicaria em redução salarial. A outra PEC rejeitada foi a 393 de 2001, de autoria do então deputado Inácio Arruda (PC do B/CE), que além de reduzir a jornada para 40 horas a partir de 1º de janeiro de 2002 e para 35 horas a partir de 1º de janeiro de 2004, estabelecia novos percentuais para o adicional de hora-extra, sendo de 100% nos dias de semana e de 200% nos domingos e feriados.
A lógica que orientou a comissão a encaminhar para o plenário da Câmara a PEC 231-A, foi a de que aprovando uma proposta em tese menos agressiva aos interesses patronais, descartando outras duas mais favoráveis aos trabalhadores, a resistência da burguesia seria menor, facilitando sua aprovação pelo Congresso. Porém, se passou exatamente o contrário. Mesmo com a comissão especial aprovando a PEC 231-A, as organizações patronais reagiram, demonstrando sua intolerância com a aprovação de qualquer direito em favor dos trabalhadores que possa significar uma redução em seus lucros. Brandiram ameaças de que a redução da jornada para 40 horas aumentaria o desemprego, ao elevar os custos das empresas. Diante da pressão patronal o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB/SP), sem pretender ofender os interesses da classe que representa, mas também premido pelos dirigentes sindicais e de olho nas eleições, apresentou uma saída intermediária. A jornada não mais seria reduzida para 40 horas semanais, mas sofreria uma redução paulatina, para 43 em 2011 e 42 em 2012. A proposta de Temer não acaba com as horas-extras, tampouco eleva o adicional para a mesma.
As grandes centrais sindicais, especialmente CUT e Força Sindical, diante do impasse e da reação patronal, recuaram e desistiram da aprovação integral da PEC 231-A, sinalizando que aceitam negociar a jornada para 42 horas semanais proposta por Temer. As causas mais profundas desse recuo estão no sindicalismo praticado por essas centrais. Este sindicalismo, crismado de propositivo, troca a luta e a organização dos trabalhadores a partir dos locais de trabalho, por um sindicalismo cuja marca é a institucionalização de suas ações. A pressão organizada dos trabalhadores a partir da base é desviada para o âmbito dos espaços institucionais, para a negociação de migalhas na Câmara dos Deputados, arena de luta onde a classe dominante leva larga vantagem numérica e política, pois se trata de um aparelho de Estado aberto à representação de todas as classes sociais, em especial das diferentes frações da burguesia. O sindicalismo propositivo, ao se institucionalizar, reproduz entre os trabalhadores uma cultura de passividade política, na qual deixam de serem os protagonistas da sua história para se transformarem em meros espectadores de uma trama cujo desenlace cabe aos profissionais da política.
A institucionalização da luta pela redução da jornada para 40 horas seguiu o mesmo roteiro e acabou por cair nessa esparrela. As grandes centrais e seus porta-vozes na Câmara dos Deputados, especialmente Vicentinho (PT/SP) e Paulinho (PDT/SP), que exibiam disposição em lutar até o fim pela aprovação da redução para 40 horas, recuaram e decidiram apoiar a proposta intermediária feita por Temer. As causas para esse recuo podem ser explicadas pela ilusão que as grandes centrais e seus porta-vozes nutriram e semearam, em achar que ao aprovar a PEC 231-A na comissão especial, a votação no Congresso seria barbada. No mínimo subestimaram a resistência dos patrões. O exemplo dessa resistência e da pressão patronal contra a aprovação da redução da jornada para 40 horas, resultou na proposta dita intermediária apresentada por Temer.
As grandes centrais e os seus porta-vozes também foram deixados de mãos abanando pelo governo Lula, cuja governabilidade, ao ser garantida por um arco de aliança com partidos claramente burgueses, especialmente o PMDB, tem como regra não infringir certas condições tacitamente estabelecidas. A principal delas é a de não apoiar projetos favoráveis aos interesses dos trabalhadores. Até mesmo Dilma Roussef, a candidata petista à presidência apoiada pelas grandes centrais, ao ser perguntada se apoiava a redução da jornada para 40 horas, declarou que, “Eu não posso apoiar nem não apoiar porque não acho que seja uma matéria governamental”. Diante desse quadro, e sem condições políticas para deslocar o eixo da luta pela redução da jornada para 40 horas para a mobilização de massa, os dirigentes das grandes centrais foram tangidos a topar a proposta de Michel Temer de redução gradual da jornada até o limite de 42 horas e negociá-la no Congresso.
Contudo, é importante lembrar que a proposta de Michel Temer não passa de uma... proposta. Seu objetivo seria o de criar as condições para uma negociação capaz de produzir uma proposta de consenso a ser levada à votação na Câmara. Porém, isso não significa que ela será aceita pelos patrões. Declarações de dirigentes de entidades patronais indicam que os capitalistas não aceitam qualquer redução da jornada de trabalho, demonstrando que a atual lógica do capitalismo, pautada pela precarização e conseqüente acentuação dos níveis de exploração dos trabalhadores, não admite a ampliação de direitos. No limite, os porta-vozes da classe patronal deixaram claro que só aceitam a redução da jornada, se esta vier acompanhada de uma redução concomitante nos salários ou se receberem em contrapartida uma redução na alíquota de contribuição ao INSS. Como a proposta de Temer servirá de base para uma negociação, ela pode ser ainda mais piorada.
Uma das principais bandeiras de luta dos trabalhadores brasileiros, a redução da jornada para 40 horas semanais sem redução dos salários, ao seguir o caminho da institucionalização, chocou-se com uma oposição organizada da classe patronal. Isso obrigou as grandes centrais e o sindicalismo governista a aceitar uma negociação que pode desfigurar e rebaixar a proposta original da PEC 231-A. Esse fato demonstra que a luta dos trabalhadores para avançar em suas conquistas, mesmo em um regime democrático-burguês, não será alcançada nos sinistros corredores do Congresso. Ela não pode estar à mercê de uma institucionalização que torna as conquistas dependentes de uma correlação de forças e de um jogo parlamentar que os trabalhadores não dominam. Tampouco as mobilizações podem ficar presas a uma lógica na qual elas não são o fator principal, mas servem de mero arrimo ao jogo institucional. As conquistas dos trabalhadores serão sempre fruto de sua luta e organização.
Campinas, maio de 2010.

22/05/2010

Os “falsos positivos”: explicação necessária para os povos do mundo

por Iván Márquez
O comandante das FARC, Iván Márquez, explica neste artigo os denominados “falsos positivos”, pessoas assassinadas pelos militares colombianos.

Resumen Latinoamericano/ANNCOL –
No jargão militar e policial da Colômbia, um “positivo” significa captura ou eliminação de pessoas consideradas inimigas do Estado. Tais “positivos” sempre foram premiados com ascensos, recompensas em dinheiro e férias. Foi este abominável procedimento do Estado, ligado à Doutrina de Segurança Nacional, o que detonou na Colômbia os “falsos positivos” ou crimes de lesa humanidade. Desde sempre, como antes no Vietnã ou em El Salvador, na Colômbia se assassina civis e logo os apresentam como guerrilheiros.
Durante a administração do presidente narco paramilitar Álvaro Uribe Vélez, estes “falsos positivos” chegaram ao degrau mais alto da perfídia humana mediante o pagamento de milionárias somas de dinheiro, promoções no escalão e franquias a integrantes das forças armadas oficiais, por pessoas mortas ou capturadas, material apreendido ou informação.
No marco de sua política de segurança, Uribe deu a sinal verde ao Ministério de Defesa para a aplicação da diretiva ministerial permanente, numero 29, de novembro de 2005, “que desenvolve critérios para o pagamento de recompensas pela captura ou abatimento em combate de dirigentes das organizações armadas à margem da lei, material de guerra, intendência ou comunicações e informação que sirva de fundamento para a continuação do trabalho de inteligencia e posterior planejamento de operações”.
Dita Diretiva, firmada por seu então Ministro de Defesa, Camilo Ospina Bernal, estabelece os seguintes montantes para pagar recompensas:
2.500.000 dólares por lideres máximos;
859.550 dólares por lideres de estruturas maiores de relevância nacional;
95.500 dólares por lideres de estruturas rurais e urbanas a nível regional;
34.380 dólares por lideres de estruturas rurais e urbanas a nível local;
1.900 dólares por lideres e membros de guerrilhas, esquadras ou rasos responsáveis de aciones a nível local.
Estas recompensas foram difundidas em todas as unidades militares com a lista das pessoas incluídas nos níveis I E II.
Removeram o valor da vida e pusera preço para a morte. Mediram o êxito de sua política criminosa de segurança em litros de sangue. Como consequência desta Diretiva, os noticiários de radio e televisão, e os titulares da imprensa se encheram de mortos, quase todos apresentados pelos militares como “chefes de finanças” da guerrilha, “mão direita” do comandante tal, ou simplesmente, “terrorista” morto em combate...
As Brigadas Militares acionaram seus gatilhos para receber as recompensa em dinheiro, promoções na hierarquia e férias remuneradas, oferecidas pelo governo.
O sucedido na municipalidade de Soacha e emblemático: dezenas de jovens desempregados foram recolhidos por contatos do exército nas esquinas com ofertas de trabalho e em menos de 24 horas apareceram nos noticiários como guerrilheiros mortos em combate, em outro extremo da geografia nacional. Foram vestidos com uniformes e armas para fazer crível a noticia. O estranho é que, enquanto seus uniformes apareciam intactos, os corpos das vitimas pareciam uma peneira, pelo efeito das balas. Esta bárbara história se repetiu impunemente durante os últimos anos banhando com sangue inocente o território da pátria.
Em seus comparecimentos ante a Procuradoria Geral da Republica os chefes militares confessaram que entregaram milhares de pessoas assassinadas por eles ao exército para cobrar a recompensa e mostraram eficiência em sua luta antisubversiva. Assim foram tecendo a fábula da derrota e do fim da guerrilha.
Quando estalou o escândalo, quando já era impossível ocultar a barbárie, saiu Uribe, o cérebro e autor intelectual da Diretriz criminosa, a rasgar-se hipocritamente as vestimentas, e com ele fizeram o mesmo seus ministros de Defesa Camilo Ospina Bernal e Juan Manuel Santos (hoje candidato à Presidência da República), os generais Padilla de León e Mario Montoya, comandantes das forças Militares e do exército respectivamente, e o Diretor da policia nacional, general Oscar Naranjo.
Tentaram fazer crer que se tratava de fatos isolados que não comprometiam a instituição, para elucidar assim sua responsabilidade penal. Contudo, a Diretiva 29 do Ministério da Defesa é uma mentira incompatível com os assassinatos e uma denúncia ao mundo de que os “falsos positivos” são o resultado direto de uma politica oficial de terrorismo de Estado.
Nenhum dos suspeitos está atrás das grades. Os militares de menor patente que estavam sendo processados pela Procuradoria, todos foram liberados. Os generais suspeitos simplesmente foram destituídos, enquanto sua responsabilidade penal começa a afundar no esquecimento.
Onde estao os autores intelectuais destes crimes de lesa-humanidade?
Os pagamentos foram realizados com recurso da nação e outros provenientes da cooperação econômica nacional e internacional, com a consigna da Diretiva.
O mesmo documento oficial reconhece textualmente que “se criou um comitê técnico de seguimento da Diretiva conformado por um delegado de Divisão Administrativa e um analista do J-2 do comendo geral das forças militares, o Chefe da divisão administrativa da Direção de inteligencia do Exercito Nacional, o chefe nacional da JINA da Armada Nacional, o chefe administrativo da JIN da Força Aérea Colombiana, dos funcionários da policia nacional (DIPOL-DIJIN), um analisara do DAL e um analista do CTI da Procuradoria.
Quem são estes senhores? Por que não foram chamados a juízo? Todos eles devem comparecer ante os tribunais acompanhados de seu chefe , o presidente Uribe.
No município de La Macarena, no terreno adjacente à base militar do lugar, foi descoberto recentemente uma grande vala comum com mais de 2 mil cadáveres. Nos últimos anos, numa ininterrupta e ruidosa procissão de morte, os helicópteros do exercito descarregaram ali os assassinados. Esses mortos são a parte da vitoria da politica de segurança de Uribe e de seus “falsos positivos”.
Durante o governo de Uribe as Forças Armadas oficiais foram convertidas em uma fria máquina de matar inocentes. Estes crimes de guerra e de lesa-humanidade têm como responsáveis os altos funcionários do Estado colombiano. Não há provas em contrário. Eles constituem um fato notório.
Estes crimes foram complementados com o encarceramento nos primeiros quatro anos de Uribe, através de rodadas massivas, de mais de 150 mil pessoas sob a falsa acusação de apoiar a insurgência.
A Colômbia vive um drama humanitário e reclama a solidariedade das nações do mundo.
Montanhas da Colômbia, maio de 2010.
Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/index.php?option=com_content&task=view&id=1872&Itemid=1&lang=es
Traduzido por Dario da Silva

21/05/2010

SAIBA O QUE É O CAPITALISMO

Atílio Borón*
O capitalismo tem legiões de apologistas. Muitos o fazem de boa fé, produto de sua ignorância e pelo fato como dizia Marx, “o sistema é opaco e sua natureza exploradora e predatória não fica evidente, perante os olhos de homens e mulheres do mundo” Outros o defendem porque são seus grandes beneficiários e arregimentam enormes fortunas graças a suas injustiças e iniqüidades. Há também outros (gurus, financistas, opinólogos, jornalistas especializados, acadêmicos bem pensantes e diversos representantes do pensamento único) que conhecem perfeitamente o que o sistema impõe em termos de custos sociais, degradação humana e do meio ambiente, mas como estão muito bem remunerados procuram omitir essas questões em seus relatos. Eles sabem muito bem, que a “batalha de idéias” que foi convocada por Fidel Castro é algo que pode ser perigoso para as ideologias que no intimo defendem e por isso não se empenham em denunciar as mazelas do capitalismo.
Para contraditar a proliferação de versões idílicas sobre o capitalismo e de sua capacidade de promover o bem estar geral examinemos alguns dados obtidos de documentos oficiais das ONU. Eles são sumamente didáticos quando se lê, principalmente em relação à crise atual – indicando que a solução dos problemas do capitalismo se obtém com mais capitalismo; ou que o G20, o FMI, a OMC e o BIRD, arrependidos dos erros do passado – irão efetivamente resolver os grandes problemas que afetam a humanidade. Todas essas instituições são incorrigíveis e irreformáveis e qualquer esperança de mudanças em seus comportamentos não é nada mais do que pura ilusão. Seguem propondo o mesmo, somente que o discurso é diferente e adotando uma estratégia de “relações públicas” desenhada para ocultar suas verdadeiras intenções. Quem tenha dúvidas que constate o que estão propondo para “solucionar” a crise na Grécia: as mesmas receitas que aplicaram e seguem aplicando na América Latina e África desde os anos oitenta do século passado.
Em continuação, podemos citar alguns dados com suas respectivas fontes recentemente sistematizados pelo Programa Internacional de Estudos Comparativos sobre a Pobreza localizado na Universidade de Bergen, Noruega, que fez um grande esforço para, desde uma perspectiva crítica, combater o discurso oficial sobre a pobreza elaborado desde mais de trinta anos pelo Banco Mundial e reproduzido incansavelmente pelos meios de comunicação, autoridades governamentais, acadêmicos e “especialistas” variados.
População mundial: 6,8 bilhões de habitantes em 2009.
1,02 bilhão de pessoas são desnutridos crônicos (FAO,2009);
2 bilhões de pessoas não tem acesso a medicamentos (www.fic.nih.gov);
884 milhões de pessoas não têm acesso à água potável (OMS/UNICEF 2008);
925 milhões de pessoas são “sem teto” ou residem em moradias precárias (ONU Habitat 2003);
1,6 bilhões de pessoas não tem acesso à energia elétrica (ONU Habitat, Urban Energy);
2,5 bilhões de pessoas não são beneficiados por sistemas de saneamento, drenagens ou privadas domiciliares (OMS/UNICEF 2008);
774 milhões de adultos são analfabetos ( www.uis.unesco.org );
18 milhões de mortes por ano devido à pobreza, a maioria de crianças menores do que cinco anos de idade (OMS);
218 milhões de crianças entre 5 e 17 anos de idade, trabalham em condições de escravidão com tarefas perigosas ou humilhantes, como soldados da ativa atuando em guerras e/ou conflitos civis, na prostituição infantil, como serventes, em trabalhos insalubres na agricultura, na construção civil ou industria têxtil (OIT: “La eliminación Del trabajo infantil, un objetivo a nuestro alcance” 2006);
Entre 1988 e 2002, os 25% mais pobres da população mundial reduziram sua participação no produto interno bruto mundial (PIB mundial) de 1,16% para 0,92%; enquanto os opulentos 10% mais ricos acrescentaram fortunas em seus bens pessoais passando a dispor de 64% para 71,1% da riqueza mundial. O enriquecimento de uns poucos tem como seu reverso o empobrecimento de muitos;
Somente esses 6,4% de aumento da riqueza dos mais ricos seriam suficientes para duplicar a renda de 70% da população mundial, salvando muitas vidas e reduzindo os sofrimentos dos mais pobres. Entendam bem: tal coisa somente seria obtida se houvesse possibilidade de redistribuir o enriquecimento adicional produzido entre 1988 e 2002 dos 10% mais ricos da população mundial, deixando ainda intactas suas exorbitantes fortunas. Mas nem isso passa a ser aceitável pelas classes dominantes do capitalismo mundial.
CONCLUSÃO
Não se pode combater a pobreza (nem erradicá-la) adotando-se medidas capitalistas. Isso porque o sistema obedece a uma lógica implacável centrada na obtenção do lucro, o que concentra a riqueza e aumenta incessantemente a pobreza e as desigualdades sócio-econômicas a nível mundial.
Depois de cinco séculos de existência é isto e somente isto que o capitalismo tem para oferecer ao mundo! Que esperamos então para mudar o sistema? Se a humanidade tem futuro, esse será claramente socialista! Com o capitalismo, não haverá futuro para ninguém! Nem para os ricos, nem para os pobres! A sentença de Friedrich Engels e também de Rosa Luxemburg: “socialismo ou barbárie” é hoje mais atual do que nunca. Nenhuma sociedade sobrevive quando seu impulso vital reside na busca incessante do lucro e seu motor é a ganância, a usura. Mais cedo ou mais tarde provocará a desintegração da vida social, a destruição do meio ambiente, a decadência política e a crise moral. Todavia estamos ainda em tempo para reverter esse quadro – então vamos à luta!
*Atilio Borón, doutor em Ciência Política pela Harvard University, é professor titular de Filosofia Política da Universidade de Buenos Aires, Argentina, e ex-secretário-executivo do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO).
http://www.atiliobo ron.com