19/01/2010

E o futuro do Haiti?

*Relato impressionante de um estudante da Unicamp.

E politicamente, o que acontecerá ao Haiti? Pode parecer preocupação excessiva pensar isso agora, mas não é… O Palácio e outros órgaos do Governo caíram. Não se têm mais todos os funcionários, os prédios, os equipamentos. O Senado veio abaixo justamente quando estava cheio. Um intelectual haitiano nos disse que tudo do Estado foi destruído e a burguesia (que sabemos, em geral, está por trás dos Estados) também foi.
As Forças Armadas e a Polícia do país não desapareceram “em meio ao caos provocado pelo terremoto”, como disse um repórter digital… As Forças Armadas não sumiram, foram desmanchadas no começo da década de 90, após decisão do presidente na época, Aristide. E a Polícia local é a única força armada que vimos nas ruas nos primeiros dias após o desastre.
As forças que a princípio sumiram aos olhos da população são as estrangeiras, que ocupam o país. Nesse sábado, andando de carro em vias relativamente livres, foi surpreendente ver dezenas de veículos da ONU parados no quartel do Brasil. Será que depois virá a comunidade internacional, resgatar o último sobrevivente, aparecer na mídia e dizer de boca cheia que ajudou o povo haitiano?
O que me assustou não é bem um “despreparo” da Minustah, como disseram por aí, mas a impressão de que há, ou houve, um desfoco, uma falta de prioridade. Os EUA estão há menos de 2h daqui, mas, pelo que vimos, demorou 4 dias para a ONU começar a lançar comida de helicópteros, o que obviamente reflete na afobação parcial da população para receber comida.
Parece que está se constatando publicamente o fracasso da Minustah (que está há 6 anos nesse Haiti) pois, realmente podemos ter dúvida do que ela deixou a esse povo: incentivo à bases, como agricultura e escolas, para o próprio país se reerguer, não foi…E agora, nessa hora emergencial, também tivemos dúvida da presença efetiva dela. Parece-me que a Minustah foi para o Haiti não apenas para oferecer comida, seguranca, etc, mas para inserir no país numa lógica que não essencialmente é a da ajuda, da prevenção e da estabilização. Tudo isso são apenas dúvidas que me farão reparar bem na intensificação do controle social que vai se instaurar e num número alto de mortos que pode existir mesmo depois do Haiti se recuperar. Hoje alguma autoridade já decretou que haverá toque de recolher, às 18h, como se fome tivesse horário pra vir e como se várias pessoas já não estivessem morando na rua.
Para além da ajuda, parece-me que se instaura muito mais fortemente uma lógica do capitalismo internacional, que aliás, é desigual e instável por si só. Quantas empresas e organizações internacionais não ganham muito no Haiti? Quantos dólares a mais elas não ganham ao trabalharem nas “zonas vermelhas” da cidade, consideradas assim pela ONU (mesmo quando são, no quesito violência, lugares comparáveis à diversas regiões do Brasil)? Tal lógica também esta presente em diversas outras “missões de paz”, em ajudas “humanitárias” pós-catástrofes, em políticas econômicas de países ricos em relação à países pobres e em desenvolvimento.
Os EUA estão mandando mais de 5 mil marines (dizem até 10 mil), obviamente muitos deles armados, dizendo que a reconstrução que buscam é a longo prazo… Também já têm o aeroporto em seu controle. Por que não priorizar 5 mil médicos, ou 5 mil litros de diesel, ou 5 mil quilos a mais de comida? Ou então 5 bi de dólares pra pagar uma fração do prejuízo que o fracasso do neoliberalismo, liderado pelos EUA, causou ao Haiti? Ou até para compensar o protecionismo de países desenvolvidos em relação a quem, economicamente, já está de guarda abaixada faz tempo?
Às vezes, penso que tantos mil soldados só podem vir pra cá para caçar, quem sabe grupos locais (os quais, onde não há presença do Estado, são naturalmente o poder existente). Pra quem quiser ajudar o Haiti, será que exise algo mais importante com que se gastar esses recursos do que investir na soberania alimentar, no combate à sede, à falta de moradia, etc, as quais já afetavam a esmagadora maioria da população antes do desastre? Desastre natural, aliás, que se agrava, na verdade, por conta de um desastre precedente, o social.
Num momento em que minha experiência no Haiti me mostrou que a natureza de muitas ocupações, “ajudas” e relações internacinais não me agradam, não posso estar otimista com o futuro politico do Haiti, apesar de acreditar muito no povo haitiano. Fico ainda mais preocupado sabendo que quem esta liderando tal movimentação é obviamente os EUA, o qual nas últimas décadas foi uma das “potências” que pressionaram infinitos países e exerceram muito dessa forma, eu diria, autoritária e doentia de se relacionar com o outro. Como disse Omar, qualquer valor monetário dado agora ao Haiti “humanitariamente” é pouco, e é, na verdade, o pagamento mínimo de uma dívida, que, ainda por cima, estão pagando de forma errada. E o Brasil parece não ter aprendido a lição que sofreu na própria pele: hoje é um dos protagonistas da intensifcação desses princípios perversos e que geram desigualdade no Haiti. Aliás, já anunciou que ficará por aqui mais 5 anos.
Apoio-me nas palavras de um dominicano, que comentou algo como: “Disseram que o terremoto foi um castigo para o povo haitiano. Foi, na verdade, um castigo para aqueles que passaram séculos tratando-os com indiferença”. Pior, por mais que muitos haitianos gostem ainda hoje do Brasil (até porque quando qualquer um dá um prato de comida a alguém faminto não é muito dificil ganhar o mínimo da simpatia deste) não posso dizer que nós, brasileiros, não somos parte dessa patota de pessoas que devem ser responsabilizadas pelo que acontece no Haiti.
*Werner Garbers

18/01/2010

Parte da tragédia do Haiti é "Made in USA"


Escrito por Huffington Post, reproduzido por Vi o Mundo
15/01/2010
Parte do sofrimento no Haiti é "Feito nos Estados Unidos". Se um terremoto pode danificar qualquer país, as ações dos Estados Unidos ampliaram os danos do terremoto no Haiti. Como? Na última década, os Estados Unidos cortaram ajuda humanitária ao Haiti, bloquearam empréstimos internacionais, forçaram o governo do Haiti a reduzir serviços, arruinaram dezenas de milhares de pequenos agricultores e trocaram apoio ao governo por apoio às ONGs.Por Bill Quigley, no Huffington Post
O resultado? Pequenos agricultores fugiram do campo e migraram às dezenas de milhares para as cidades, onde construiram abrigos baratos nas colinas. Os fundos internacionais para estradas e educação e saúde foram suspensos pelos Estados Unidos. O dinheiro que chega ao país não vai para o governo mas para corporações privadas. Assim o governo do Haiti quase não tem poder para dar assistência a seu próprio povo em dias normais -- muito menos quando enfrenta um desastre como esse.Alguns dados específicos de anos recentes.
Em 2004 os Estados Unidos apoiaram um golpe contra o presidente eleito democraticamente, Jean Bertrand Aristide. Isso manteve a longa tradição de os Estados Unidos decidirem quem governa o país mais pobre do hemisfério. Nenhum governo dura no Haiti sem aprovação dos Estados Unidos.
Em 2001, quando os Estados Unidos estavam contra o presidente do Haiti, conseguiram congelar 148 milhões de dólares em empréstimos já aprovados e muitos outros milhões de empréstimos em potencial do Banco Interamericano de Desenvolvimento para o Haiti. Fundos que seriam dedicados a melhorar a educação, a saúde pública e as estradas.
Entre 2001 e 2004, os Estados Unidos insistiram que quaisquer fundos mandados para o Haiti fossem enviados através de ONGs. Fundos que teriam sido mandados para que o governo oferecesse serviços foram redirecionados, reduzindo assim a habilidade do governo de funcionar.
Os Estados Unidos têm ajudado a arruinar os pequenos proprietários rurais do Haiti ao despejar arroz americano, pesadamente subsidiado, no mercado local, tornando extremamente difícil a sobrevivência dos agricultores locais. Isso foi feito para ajudar os produtores americanos. E os haitianos? Eles não votam nos Estados Unidos.Aqueles que visitam o Haiti confirmam que os maiores automóveis de Porto Príncipe estão cobertos com os símbolos de ONGs. Os maiores escritórios pertencem a grupos privados que fazem o serviço do governo -- saúde, educação, resposta a desastres. Não são guardados pela polícia, mas por segurança privada pesadamente militarizada.
O governo foi sistematicamente privado de fundos. O setor público encolheu. Os pobres migraram para as cidades. E assim não havia equipes de resgate. Havia poucos serviços públicos de saúde.
Quando o desastre aconteceu, o povo do Haiti teve que se defender por conta própria. Podemos vê-los agindo. Podemos vê-los tentando. Eles são corajosos e generosos e inovadores, mas voluntários não podem substituir o governo. E assim as pessoas sofrem e morrem muito mais.
Os resultados estão à vista de todos. Tragicamente, muito do sofrimento depois do terremoto no Haiti é "Feito nos Estados Unidos".

14/01/2010

A Criação de um Mito. A nova face da alienação política do período petista.

Pela primeira vez na história do cinema, um presidente da república ainda em pleno
mandato, tem dedicada sua biografia à sétima arte, com um grande apelo à trajetória
de quem venceu a fome e as péssimas condições as quais os retirantes nordestinos
são submetidos desde o êxodo do sertão até chegar às favelas na periferia de São
Paulo. O filme sobre a trajetória de Lula é uma superprodução para os padrões
brasileiros, financiado com recursos de diversas empresas privadas, entre elas
empreiteiras que estão diretamente envolvidas nas obras do PAC, tais como a
Odebrecht e Camargo Corrêa e empresas prestadoras de serviços ou parceiras na
exploração do Pré-sal, como o grupo EMX, do empresário Eike Batista.
Mas o que nos chama a atenção no filme não é a grande quantidade de empresas
privadas que financiaram a obra e nem tão pouco a qualidade cinematográfica e o
investimento no elenco. O que nos chama a atenção são as mensagens que estão
evidenciadas nessa obra e o quanto a era Lula dá indícios de que ainda irá perdurar
por algum tempo no cenário político brasileiro.
Podemos avaliar o filme em pelo menos três aspectos, sendo que todos eles são
partes de um todo que pode ser resumido na tentativa da reificação de um mito vivo
no imaginário da população.
O 1º aspecto trata da superação e da conquista de outro patamar de vida, ao qual de
certa forma, todos(as) os(as) trabalhadores(as) são envolvidos ao se verem retratar
na pele de um menino pobre, de uma família numerosa e retirante, que sonha com
uma perspectiva melhor ao virem para São Paulo e que são sujeitados a todo o tipo
de prova: fome, miséria, enchentes destruindo tudo nas madrugadas, humilhações
etc, etc.
Lula encarna a figura do herói épico que vence com afinco as determinações às
quais a classe trabalhadora estaria subjugada.
Uma vez operário, ainda jovem, se horroriza com o vandalismo das greves dirigidas
pelos comunistas, como o seu irmão mais velho, conhecido na época como “Frei
Chico” e não vê sentido em tratar os patrões e o Governo, leia-se o capital, como os
inimigos de classe dos trabalhadores(as).
Lula quer namorar, curtir o futebol, tomar cerveja e viver a vida, mesmo que sob o
obscurantismo da Ditadura Militar e as perseguições e arrochos sob os quais o
operariado vivia no Brasil naquele momento. Representa o trabalhador comum, mas
sensível aos dilemas de seu tempo. Por sua vez, escolhe outra forma de se
posicionar frente a esse contexto; critica a luta armada, o radicalismo ideológico da
esquerda marxista, presente nos diálogos com o irmão.
Após a perda trágica da 1ª esposa, morta em trabalho de parto junto com o filho, Lula
se deprime e envolve-se então de corpo e alma com o sindicato dos metalúrgicos do
ABC, à época dirigido por um sindicalista oportunista e que possuía relações
espúrias com o Governo e o empresariado.
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Eis o 2º aspecto da peça, o operário comum que desde cedo não se condicionou
pelo enfrentamento ideológico, mas que buscou encontrar outras formas de
convivência com o capital, aceita o estabelecimento do FGTS (Fundo de Garantia
por Tempo de Serviço) e passa a propagandear as vantagens em se aceitar a
transição, ao contrário dos comunistas que denunciavam o ataque ao direito da
estabilidade por tempo de serviço. É o sindicalista que aos poucos vai retirando o
sindicato do isolamento e vai condicionando aos trabalhadores do ABC uma voz
ativa frente aos arrochos promovidos pela política econômica.
No filme, em seu discurso de posse em 1975, Lula reafirma que o papel fundamental
do sindicato seria “buscar o entendimento” e de que “ não são os patrões os nossos
inimigos”. Está plantada aí a semente ideológica de um modelo sindical que se
alastrou e firmou raízes em diversos segmentos da classe trabalhadora em todo o
Brasil e que alguns anos mais tarde estaria bem representada na organização
político e sindical conhecida como Articulação, a principal corrente do Partido dos
Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores ( CUT).
Nesse momento o aspecto ideológico fica muito evidente. O novo sindicalismo
forjado nas lutas do ABC no final dos anos 70 e início dos 80 é um sindicalismo que
superou tanto o “velho” modelo comunista, baseado na luta de classes, como
também o peleguismo, típico do período intervencionista na estrutura sindical,
constituindo através das greves e da mobilização de base o despertar do sonho de
uma classe por um futuro mais digno e a superação das amarras da Ditadura.
É o herói coletivo, aquele que encarna todo o sentimento de esperança e rebeldia de
um momento histórico, de transição, mas ao mesmo tempo de estabelecimento de
um novo modelo de relação entre o capital e o trabalho no coração da indústria
brasileira.
O 3º e último ato da peça encerra todo o sentido da obra.
Lula supera as adversidades, “conquista” junto com seus companheiros de sindicato
um novo patamar não apenas para os metalúrgicos do ABC mas também para o
conjunto da população brasileira ao se tornar o 1º operário eleito presidente da
república.
Um líder sindical que através da persistência e da fidelidade com suas origens,
imbuído de suas convicções, entre elas a de que os “patrões não são os nossos
inimigos” consegue chegar ao mais alto posto do poder político no Brasil.
Enfim o filme: “Lula, O Filho do Brasil” é um fantástico documentário de propaganda
política e ideológica da perspectiva social democrata, não para a época retratada no
filme; mas para a nossa atualidade.
Muitos críticos vêem no filme mais um elemento de campanha eleitoral para a
ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, o que não deixa de ser verdade. Mas
essa obra também serve como elemento de propagação de uma idéia, de uma
mensagem aos trabalhadores em época de crise econômica mundial e acentuada
contradições no mundo do trabalho, de que assim como nos anos 70, mesmo com
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greves e ocupações, o diálogo e a parceria devem estar sempre à frente da
condução política das lideranças de classe, sejam eles patrões ou empregados.
O modelo instaurado no ABC e ampliado pela CUT durante os anos 90 com a defesa
do chamado sindicalismo de resultados perpassa hoje por uma séria onda de
críticas, pois o apogeu desse modelo de sindicalismo conciliatório e institucionalizado
encontrou justamente no Governo do presidente “operário” seu clímax e ao mesmo
tempo seu limite histórico, pois aumenta significativamente a onda de desfiliações
das entidades de base ao não identificarem mais nesse modelo sindical uma real
alternativa de luta frente aos efeitos da crise.
Mesmo assim a associação do homem retirante com o líder sindical e com o
presidente eleito que após ser derrotado por três vezes, não desistiu, vencendo as
eleições de 2002 é justamente a síntese desejada tanto pelos que defendem o atual
governo em ano eleitoral, como os que defendem o legado histórico da CUT e seus
sindicatos orgânicos, como os que defendem a manutenção desse modelo de
governo socialiberal, calcado na mais profunda aliança de classe já operada entre a
burguesia e a nova burocracia sindical e política.
Há ainda outro elemento que não pode ser desconsiderado e nada mais justo que
parafrasear o próprio presidente Lula: “nunca antes na história desse país”, um
presidente que não tem condições legais de ser candidato ao próximo pleito já
antecipou sua campanha para 2014 com tanta pompa e inteligência.
O filme sem sombra de dúvida estará presente no imaginário da população brasileira
ao longo desses próximos anos tornando-se mais um acessório de propaganda
ideológica, utilizada pelo PT em torno da figura de Lula sempre que se fizer
necessário, pois como bem está sintetizado em seu título, LULA seria o filho natural
de toda uma nação chamada Brasil.
Nem Getúlio Vargas inspirado em Joseph Goebbels, quando criou o DIP
(Departamento de Imprensa e Propaganda) inaugurando na história da república o
uso do marketing político para a auto promoção, chegaria a tanto!
Por Fábio Bezerra.
(Professor de História e Filosofia e membro do CC do PCB)